Com taxas que podem ultrapassar 450% ao ano, modalidade é a principal vilã das finanças domésticas, colocando o país no topo de um ranking global perverso
Um silencioso e onipresente mecanismo de endividamento corróe o orçamento das famílias brasileiras: os juros do rotativo do cartão de crédito. Enquanto na maioria dos países essa taxa gira em torno de 20% ao ano, no Brasil é comum encontrar patamares superiores a 450% ao ano, colocando o país em um triste primeiro lugar no ranking mundial desse tipo de juro, segundo estudos do Banco Central e do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que o cartão de crédito é o principal motivo de endividamento das famílias, presente em 85% das contas em atraso.
Como o rotativo engole o orçamento familiar
O rotativo é a opção oferecida pelas administradoras de cartão quando o consumidor não paga integralmente a fatura. Ele permite parcelar a dívida, mas a um custo proibitivo. Para ilustrar, uma dívida de R$ 1.000 no rotativo, com juros de 14% ao mês (ao ano, isso equivale a 380%), se não for paga, pode se transformar em mais de R$ 4.800 em apenas um ano.
Trata-se de uma bola de neve perversa. Uma parcela de inadimplência inicial, muitas vezes causada por um imprevisto como o desemprego ou uma doença, se transforma em uma dívida impagável em poucos meses devido aos juros exponenciais do rotativo. O consumidor fica preso em um ciclo do qual é quase impossível escapar.
A justificativa das empresas
As administradoras de cartão defendem as altas taxas argumentando com o alto risco de inadimplência inerente ao crédito não garantido (sem garantia real) e com os custos operacionais. Alegam que, sem juros altos, o sistema se tornaria inviável.
No entanto esses argumentos não se sustentam, pois a relação risco-custo não justifica a magnitude desses juros. É um mercado extremamente concentrado, com poucas bandeiras dominantes, o que limita a concorrência e permite a manutenção de spreads bancários (a diferença entre o custo de captação do banco e o juro cobrado do cliente) absurdamente altos. É mais uma questão de poder de mercado do que de avaliação de risco real.
Um problema estrutural
O problema é reconhecido pelo próprio Banco Central. Relatórios da autarquia já apontaram o rotativo como o grande vilão das finanças nacionais. Nos últimos anos, o BC tentou mitigar a situação com medidas como a obrigatoriedade de oferecer opções de parcelamento com juros menores (que ainda assim são altos) e a regra que limita o uso do rotativo a apenas uma fatura.
A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) afirmar que “as taxas são definidas com base em complexos modelos de análise de risco e estão em conformidade com a legislação.
Como evitar a armadilha
- Negociar diretamente: antes de entrar no rotativo, ligar para a administradora e tentar um parcelamento da dívida com taxas menores.
- Usar crédito pessoal: um empréstimo pessoal, mesmo com juros altos, é significativamente mais barato que o rotativo.
- Busque refinanciamento: procurar outras instituições para quitar a dívida do cartão com um crédito de custo menor.
A conclusão é clara os juros do rotativo do cartão de crédito no Brasil não são apenas altos, são desproporcionais e funcionam como uma máquina de endividamento em massa.