Ao capturar Maduro e evocar a Doutrina Monroe, Washington reafirma o continente americano ( Américas do Norte, Central e Sul) como seu quintal estratégico
A América Latina amanheceu sob uma nova e turbulenta realidade geopolítica. O ataque das forças especiais dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no sequestro de Nicolás Maduro, reabre um capítulo que muitos julgavam encerrado: o do intervencionismo agressivo de Washington em seu “quintal estratégico”.
A operação, desenhada meticulosamente no final de 2025 sob a égide da nova Estratégia de Segurança Nacional, marca a consolidação do “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Quase 200 anos após o manifesto original de 1823, o atual ocupante da Casa Branca deixa claro que o Hemisfério Ocidental volta a ter um dono disposto a usar a força para garantir o domínio regional.
Diferente das longas ocupações do passado, a ação em Caracas evocou a invasão do Panamá em 1989. Relatos indicam ataques aéreos cirúrgicos e o uso de forças de elite para a extração do líder chavista. A imagem de helicópteros estadunidenses sobrevoando Caracas sem resistência sugere uma supressão total das defesas aéreas ou, como especulam analistas, a conivência de setores da cúpula militar venezuelana em troca de anistia.
Enquanto janelas em Caracas se abriam com celebrações populares, o mundo tentava entender a extensão da mensagem de Trump. Ao remover Maduro, o republicano não apenas derruba um adversário, mas envia um ultimato a Moscou e Pequim: as potências rivais, com pés fincados na Venezuela, devem recuar.
A reação internacional, por ora, é de uma impotência calculada:
- Rússia: prioriza a negociação com Trump para manter seus ganhos na Ucrânia, sacrificando Maduro no processo.
- China: Xi Jinping, focado na estabilidade econômica e na tensão em Taiwan, busca evitar um embate direto que prejudique o comércio global.
- Brasil: o presidente Lula, embora critique o “imperialismo”, mantém um pragmatismo silencioso.
O vácuo deixado pelo chavismo é complexo. Trump expressou o desejo de ver a Nobel da Paz, María Corina Machado, na presidência, mas terá de lidar com um Estado profundamente militarizado. Com cerca de 2.000 oficiais-generais entranhados na máquina pública e no crime organizado, Washington parece ter aprendido a lição do Iraque em 2003: em vez de banir os militares, o caminho deve ser a cooptação.
Contudo, o preço da queda da ditadura pode ser uma era de instabilidade sem precedentes. Países como Colômbia e Cuba agora se sentem sob a mira direta da Casa Branca. Se o fim do regime de Maduro é celebrado por muitos, o método utilizado sinaliza que, a partir de 2026, a diplomacia na região será substituída por uma exigência clara de Washington: colaboracionismo total.
Fonte: Folha de S.Paulo e Opera Mundi







