Em vez de consertar vias esburacadas, Roberto Araújo (PL) decidiu acionar a Polícia Civil contra morador que protestava pela melhoria das condições das ruas em Avaré (SP)
Cidade do interior de SP vive um paradoxo administrativo que expõe as prioridades distorcidas da gestão municipal.
Enquanto os buracos se multiplicam pelas ruas da cidade de Avaré (SP), colocando em risco motoristas e pedestres, o prefeito Roberto Araújo (PL) escolheu usar o aparato policial não para resolver o problema, mas para perseguir quem ousa denunciá-lo publicamente.
A vítima dessa retaliação é Vinícius Berne, motorista de aplicativo que testemunha diariamente o descaso com a infraestrutura urbana. Cansado de desviar de crateras no asfalto e preocupado com a segurança da população, Berne iniciou uma campanha nas redes sociais mostrando a situação precária das vias públicas. Um de seus vídeos viralizou e, aparentemente, feriu o ego do gestor público.
A resposta do prefeito não veio em forma de compromisso com a população ou de um plano emergencial de obras. Araújo preferiu acionar a Delegacia Seccional de Avaré e solicitar a abertura de um inquérito policial contra o motorista. O pedido foi prontamente acolhido pela autoridade policial, e o caso agora tramita rumo à Justiça.
A ironia é brutal: após a repercussão dos vídeos, os buracos mostrados nas imagens foram tapados em menos de 24 horas. Isso prova que a Prefeitura tinha plena capacidade de resolver o problema, mas só o fez quando a pressão popular tornou-se insuportável.
Motivado pelo resultado inicial, o motorista lançou a campanha “Cuide do Seu Buraco”, incentivando outros moradores a denunciarem os problemas de suas ruas. A iniciativa popular, que deveria ser celebrada como exercício de cidadania, foi interpretada pelo prefeito como uma afronta pessoal. Em vez de dialogar com a população e assumir responsabilidades, Araújo optou pelo caminho da intimidação.
Vinícius Berne foi surpreendido com uma intimação da Polícia Civil para prestar depoimento. Na delegacia, tomou conhecimento da acusação: as placas que ele colocava alertando a população sobre os buracos “representavam risco aos munícipes”. O argumento é, no mínimo, cínico. Os buracos, sim, representam risco real e concreto aos moradores. As placas apenas alertavam para o perigo que a própria Prefeitura se recusa a eliminar.
O motorista destaca a contradição entre o discurso e a prática do gestor municipal. O slogan oficial do governo é “A nossa missão é cuidar da população”. Na prática, porém, a missão parece ser silenciar quem cobra esse cuidado. A promessa de campanha virou peça de marketing vazio, descolada da realidade das ruas esburacadas.
A situação das vias públicas de Avaré não é apenas uma questão estética. Os buracos aumentam drasticamente a possibilidade de acidentes, colocam em perigo motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Além disso, elevam significativamente os gastos com manutenção de veículos, onerando especialmente a população mais pobre, que já convive com recursos financeiros escassos e não pode arcar com consertos constantes de suspensão, pneus e alinhamento.
Enquanto o prefeito Roberto Araújo dedica tempo e energia para perseguir um cidadão que apenas exerceu seu direito de expressão e cobrança, a cidade permanece refém da negligência administrativa. O episódio revela uma gestão que prefere atacar o mensageiro a resolver a mensagem, que escolhe a repressão em vez do diálogo, a intimidação no lugar da responsabilidade.
Resta saber se a Justiça acolherá essa tentativa de criminalizar o protesto legítimo ou se reconhecerá o óbvio: em uma democracia, cobrar melhorias dos governantes não é crime, é dever. E em Avaré, quem deveria estar sendo investigado não é quem denuncia os buracos, mas quem permite que eles continuem ameaçando a população.
Fonte: G1 Itapetininga







