Dependência extrema de empréstimos externos e décadas de desequilíbrio fiscal colocam o país em um ciclo de austeridade que redefine a realidade social de milhões de argentinos.
Em janeiro de 2026, a Argentina consolida uma posição incômoda no cenário financeiro global: o país detém a maior dívida individual com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em todo o mundo. Com um saldo devedor que orbita os US$ 42 bilhões, a nação sul-americana concentra cerca de um terço de todo o crédito concedido pelo organismo internacional.
Essa relação de dependência, que se arrasta por décadas, não é apenas um registro contábil, mas o motor de uma profunda transformação socioeconômica que dita o ritmo de vida nas ruas de Buenos Aires a Córdoba.
A gênese da crise atual remonta a 2018, quando o governo liberal de Mauricio Macri solicitou o maior empréstimo da história do FMI — cerca de US$ 57 bilhões — para conter uma corrida cambial e a desvalorização acelerada do peso. O que deveria ser um “colete salva-vidas” tornou-se uma âncora.
O país não conseguiu retomar o crescimento esperado, e as administrações seguintes, incluindo a de Alberto Fernández e a atual de Javier Milei, viram-se presas em um ciclo de renegociações para evitar o default (calote).
As causas dessa situação são estruturais. A Argentina sofre com um déficit fiscal crônico, onde o Estado historicamente gasta mais do que arrecada, e uma bimonetarização da economia, onde a falta de confiança na moeda local faz com que a população busque refúgio no dólar, drenando as reservas do Banco Central.
Javier Milei e o choque de austeridade – sob a gestão de Javier Milei, que assumiu o poder no final de 2023 com uma plataforma de “motosserra” nos gastos públicos, a relação com o FMI entrou em uma nova fase. Em 2025 e no início de 2026, o governo intensificou o ajuste fiscal para cumprir as metas do Fundo, buscando um superávit primário rigoroso.
Embora o FMI tenha elogiado o “progresso impressionante” na redução da inflação, que começou a dar sinais de desaceleração após atingir picos históricos, o preço pago pela sociedade é elevado. O cumprimento das metas exige cortes drásticos em subsídios de energia, transporte e repasses para províncias, além da paralisação de obras públicas.
Consequências para o povo – para o cidadão argentino comum, a dívida com o FMI manifesta-se no custo de vida. A principal consequência é a perda do poder de compra. Mesmo com a tentativa de estabilizar o câmbio, a Argentina fechou 2025 com níveis de pobreza próximo da marca dos 50%, um reflexo direto da recessão causada pelo ajuste econômico necessário para pagar os credores.
As principais consequências sentidas na atualidade incluem:
- Tarifas em alta: o fim dos subsídios estatais fez com que as contas de luz, gás e água subissem exponencialmente, pressionando o orçamento das famílias de classe média e baixa.
- Precarização do emprego: a contração econômica para “esfriar” a inflação resultou em uma taxa de desemprego resiliente e no aumento do trabalho informal.
- Incerteza no consumo: a prioridade do governo em acumular reservas internacionais para pagar os vencimentos da dívida — que só no primeiro semestre de 2026 superam os US$ 10 bilhões — limita a capacidade de investimento interno e o consumo doméstico.
O cenário em 2026 é de uma estabilização frágil. A Argentina caminha no fio da navalha: de um lado, a necessidade de manter a disciplina fiscal para não romper com o FMI e conseguir novos financiamentos; do outro, uma tensão social latente de uma população que espera que o sacrifício econômico finalmente se traduza em uma melhoria real na qualidade de vida, algo que o peso da dívida bilionária ainda insiste em adiar.







