Do Império à República: a persistente divisão política no Brasil entre conservadores e progressistas

Da disputa entre liberais e conservadores no século XIX aos embates entre bolsonarismo e antibolsonarismo no século XXI, a história política brasileira é marcada por uma lógica recorrente de polarização entre dois grandes campos

A polarização política não é um fenômeno recente no Brasil nem uma anomalia restrita ao século XXI. Ao longo de sua história, desde o período imperial, o país tem organizado seus conflitos políticos, sociais e ideológicos em torno de dois grandes polos, ainda que com nomes, discursos e atores diferentes conforme o contexto histórico.

Essa dinâmica binária atravessa o século XIX, estrutura os principais conflitos do século XX e se manifesta com força renovada nas primeiras décadas do século XXI.

Durante o Império (1822–1889), a política já se organizava em torno de dois grandes grupos: liberais e conservadores. Embora ambos compartilhassem a defesa da monarquia e da ordem escravocrata, divergiam sobre centralização do poder, autonomia provincial e ritmo das reformas.

A alternância entre essas forças, muitas vezes mais formal do que substantiva, inaugurou um padrão de antagonismo político que se repetiria sob novas formas ao longo do tempo.

No século XX, com a urbanização, a industrialização e a ampliação do debate ideológico global, a polarização brasileira passou a incorporar disputas mais profundas sobre modelos de Estado, economia e sociedade. Dois momentos emblemáticos ilustram essa trajetória: os anos 1930, com o embate entre integralistas e antifascistas, e o período da ditadura militar, marcado pelo bipartidarismo forçado entre ARENA e MDB.

1- Fascismo e antifascismo nos anos 1930

Nas décadas de 1920 e 1930, especialmente na primeira metade dos anos 1930, o Brasil viveu uma polarização intensa que refletia a conjuntura internacional marcada pela ascensão do fascismo e pela expansão do comunismo. Esse conflito se expressou de forma clara na rivalidade entre a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Libertadora (ANL).

Fundada em 1932 por Plínio Salgado, a AIB era uma organização de extrema-direita inspirada nos regimes fascistas europeus. Defendia o nacionalismo extremo, a ideia de um Estado Integral, a hierarquia social, a disciplina e o espiritualismo cristão, em oposição tanto ao liberalismo quanto ao comunismo. Seus militantes, conhecidos como “camisas-verdes”, utilizavam símbolos, uniformes e rituais próprios, promovendo marchas e comícios com forte apelo à juventude. A AIB contou com apoio de setores conservadores da sociedade, de segmentos militares e de parte da Igreja.

Do outro lado, a ANL surgiu em 1935 como uma frente ampla antifascista, reunindo comunistas do PCB, socialistas, tenentes progressistas e setores populares. Defendia o anti-imperialismo, a reforma agrária, a nacionalização de empresas estrangeiras e a suspensão da dívida externa. Luís Carlos Prestes, figura central do movimento tenentista, tornou-se seu presidente de honra, conferindo à ANL grande projeção nacional.

A rivalidade entre integralistas e aliancistas extrapolou o debate ideológico e se traduziu em confrontos físicos, disputas simbólicas e propaganda agressiva. Episódios como a Batalha da Praça da Sé, em 1934, em São Paulo, evidenciaram o grau de violência política já antes da formalização da ANL. No contexto do governo Getúlio Vargas, a polarização foi instrumentalizada pelo poder central: enquanto a AIB era vista inicialmente como aliada na contenção da esquerda, a ANL passou a ser tratada como ameaça comunista e foi colocada na ilegalidade em julho de 1935.

O fechamento da ANL e a fracassada Intentona Comunista, no mesmo ano, forneceram o pretexto para o endurecimento do regime. Em 1937, Vargas deu o golpe do Estado Novo, dissolvendo paradoxalmente tanto a ANL quanto a própria AIB. A polarização extrema dos anos 1930, ao invés de resultar em uma vitória duradoura de um dos polos, abriu caminho para uma ditadura centralizadora que suprimiu ambos.

2- Governos militares e o bipartidarismo forçado

Três décadas depois, o Brasil voltaria a experimentar uma polarização institucionalizada, agora sob a ditadura militar instaurada em 1964. Diferentemente dos anos 1930, o conflito não se deu entre organizações ideológicas autônomas, mas dentro de um sistema controlado pelo Estado.

Com o Ato Institucional nº 2, de 1965, os partidos existentes foram extintos e o regime impôs o bipartidarismo, criando a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), como partido da situação, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), como oposição consentida. A ARENA reuniu majoritariamente forças conservadoras, sobretudo oriundas da UDN, além de setores do PSD e do PTB, funcionando como base de sustentação legislativa do regime e validando os sucessivos Atos Institucionais.

O MDB, por sua vez, agregou opositores moderados, ex-trabalhistas e parlamentares progressistas que escaparam das cassações. Embora submetido a severas restrições, o partido utilizou o espaço institucional disponível para denunciar a censura, a repressão e a tortura, tornando-se, ao longo do tempo, o principal canal político da insatisfação popular.

A dinâmica entre ARENA e MDB reforçou a lógica binária: de um lado, o “partido do sim”, associado à obediência ao Executivo; de outro, uma oposição que começou tímida, mas se fortaleceu ao longo da década de 1970. A expressiva vitória do MDB nas eleições de 1974 alarmou o regime, levando ao fechamento do Congresso e à imposição do Pacote de Abril, em 1977, para garantir a maioria governista, criando inclusive a figura do famigerado “senador biônico” escolhido pela presidência da Republica da época, sem ser eleito.

No final dos anos 1970, diante do desgaste político e econômico, a ditadura optou por encerrar o bipartidarismo, buscando fragmentar a oposição.

Século XXI: bolsonarismo e antibolsonarismo

No século XXI, a polarização voltou a ocupar o centro do debate político, agora em um ambiente democrático, midiático e altamente judicializado. Desde as eleições de 2018, o embate entre bolsonaristas e antibolsonaristas estruturou o cenário político nacional, com forte divisão social e mobilização permanente.

O antibolsonarismo surgiu inicialmente como desdobramento do antipetismo, mas ganhou identidade própria com a ascensão de Jair Bolsonaro. Movimentos como o “Ele Não”, em 2018, marcaram a organização inicial dessa oposição. Durante o governo Bolsonaro, especialmente no contexto da pandemia de COVID-19, os conflitos se intensificaram, envolvendo disputas sobre políticas de saúde, ataques a instituições e manifestações de rua.

A eleição de 2022 representou o ápice dessa polarização. A derrota de Bolsonaro e a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foram seguidas por bloqueios de rodovias, acampamentos em frente a quartéis e, em 8 de janeiro de 2023, pela invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília.

A resposta judicial, liderada pelo Supremo Tribunal Federal, uniu setores de esquerda e centro no campo antibolsonarista, enquanto o bolsonarismo passou a enfatizar a narrativa de perseguição política e a defesa da anistia aos envolvidos.

Entre 2024 e 2026, a divisão permaneceu elevada. Dados recentes apontam que entre 74% e 76% dos brasileiros se identificam com um dos dois campos, com leve vantagem do antibolsonarista sobre o bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, a inelegibilidade e a prisão de Jair Bolsonaro abriram disputas internas pela liderança desse campo, com nomes como Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, Romeu Zema e Flávio Bolsonaro, este último um legito herdeiro político do pai – o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Concluindo – do Império aos dias atuais, a política brasileira revela uma notável continuidade: a tendência à organização do conflito em torno de dois grandes polos, frequentemente percebidos como antagônicos e excludentes.

Seja entre liberais e conservadores, integralistas e antifascistas, situação e oposição na ditadura, ou bolsonaristas e antibolsonaristas, a lógica binária tem moldado instituições, discursos e comportamentos políticos.

Embora os conteúdos ideológicos e os contextos históricos tenham mudado, a persistência dessa estrutura ajuda a explicar tanto a intensidade dos conflitos quanto as dificuldades recorrentes de construção de consensos duradouros no Brasil.

A história sugere que a divisão ou polarização política no Brasil, longe de ser um desvio ocasional, é um elemento constitutivo da experiência política brasileira, com impactos profundos sobre sua democracia do passado, do presente e será do futuro.

Por Marco Antônio Mourão – Gestor Educacional e de Pessoas, Professor aposentado, Sócio proprietário da Equipe Assessoria Educacional Ltda, adora conversar sobre Política, Ciência Política, Economia e Gestão Pública Municipal.

Compartilhar

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Ofertas

Humor

Sem piadas hoje, só a vida mesmo.

Rádio

Cotação Diária

BRL/USDR$5,21
BRL/EURR$6,22
BRL/BTCR$473.882,36
BRL/ETHR$15.606,9
28 jan · CurrencyRate · BRL
CurrencyRate.Today
Check: 28 Jan 2026 17:10 UTC
Latest change: 28 Jan 2026 17:03 UTC
API: CurrencyRate
Disclaimers. This plugin or website cannot guarantee the accuracy of the exchange rates displayed. You should confirm current rates before making any transactions that could be affected by changes in the exchange rates.
You can install this WP plugin on your website from the WordPress official website: Exchange Rates🚀
PORTO FERREIRA Clima
Edit Template

Cotação Diária

BRL/USDR$5,21
BRL/EURR$6,22
BRL/BTCR$473.882,36
BRL/ETHR$15.606,9
28 jan · CurrencyRate · BRL
CurrencyRate.Today
Check: 28 Jan 2026 17:10 UTC
Latest change: 28 Jan 2026 17:03 UTC
API: CurrencyRate
Disclaimers. This plugin or website cannot guarantee the accuracy of the exchange rates displayed. You should confirm current rates before making any transactions that could be affected by changes in the exchange rates.
You can install this WP plugin on your website from the WordPress official website: Exchange Rates🚀
PORTO FERREIRA Clima

Sociais

Youtube

*Os textos publicados são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação ou de seus controladores.

*Proibida a reprodução total ou parcial, cópia ou distribuição do conteúdo, sem autorização expressa por parte desse portal.