Relatórios enviados ao TCU apontam que o ex-presidente teria atuado para evitar intervenção na instituição, que saltou de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões em ativos sob sua vigilância.
Documentos enviados pelo Banco Central (BC) ao Tribunal de Contas da União (TCU) revelam uma série de manobras e omissões que teriam evitado a liquidação do Banco Master durante a gestão de Roberto Campos Neto.
As informações sugerem que o ex-presidente da autoridade monetária atuou pessoalmente em pelo menos duas ocasiões em 2024, em março e novembro, para impedir medidas drásticas contra a instituição, que já apresentava sinais críticos de insolvência e irregularidades contábeis.
Campos Neto, que assumiu o cargo em 2019 indicado por Jair Bolsonaro e teve seu mandato estendido até dezembro de 2024, defende que as decisões do BC são estritamente técnicas e colegiadas. Segundo interlocutores, ele alega que nunca houve uma proposta formal de intervenção encaminhada pela Diretoria de Fiscalização ao colegiado que tenha sido barrada.
Crescimento exponencial sob suspeita – desde que Daniel Vorcaro assumiu o controle do antigo Banco Máxima (rebatizado como Master) em 2019, a instituição viveu uma expansão agressiva. Em cinco anos, o banco saltou de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões em ativos. Segundo a agência Moody’s, o Master dobrou de tamanho apenas em 2024, com um crescimento de 100% no ano.
Essa expansão ocorreu sob a égide da agenda de “desconcentração bancária” defendida por Campos Neto. Contudo, o que era visto como incentivo à concorrência pode ter mascarado uma gestão temerária.
Em agosto de 2023, o mercado já emitia sinais de alerta: a Warren Investimentos recomendou que clientes não comprassem CDBs do Master, citando desconfiança sobre o ritmo de crescimento da instituição.
A “brecha” dos precatórios – a investigação aponta que uma norma editada pelo BC em outubro de 2023 sobre a contabilização de precatórios continha uma “brecha” que beneficiou diretamente o Master. A medida permitiu que o banco, carregado de dívidas judiciais e direitos creditórios, continuasse operando sem a necessidade de novos aportes dos sócios ou venda de ativos, adiando uma correção necessária em seu balanço.
No relatório enviado ao ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, o BC detalha o colapso da liquidez do banco ao longo de 2024:
- Fracasso de captação: o plano de negócios previa captar R$ 15 bilhões, mas apenas R$ 2 bilhões foram efetivados.
- Irregularidades: foram detectadas insuficiências de capital, informações incorretas prestadas à Autarquia e inexistência de ativos líquidos em fundos que lastreavam operações de longo prazo.
- Falta de compulsórios: em novembro de 2024, um mês antes de Campos Neto deixar o cargo, o Master parou de recolher os depósitos compulsórios obrigatórios, um dos principais indicadores de que uma instituição perdeu o controle financeiro.
Mesmo diante do quadro crítico, o BC optou por aplicar apenas medidas “prudenciais preventivas”, o equivalente a um cartão amarelo, baseadas em uma resolução de 2011. A situação só saiu do controle administrativo para o âmbito criminal em janeiro de 2025, logo após a saída de Campos Neto.
A Polícia Federal, por meio da Operação Compliance Zero, investiga o que classifica como “crimes novos”, incluindo a venda de carteiras falsas de terceiros ao Banco de Brasília (BRB).
Daniel Vorcaro foi preso no início de 2025, selando o destino de uma instituição que, para muitos analistas, teve sua agonia prolongada por decisões políticas dentro da cúpula do Banco Central.
Fonte: Valor Econômico







