Enquanto a Petrobras reduz preços nas refinarias, distribuidoras privadas como a Vibra Energia retêm benefícios para inflar margens e praticam “oportunismo” diante de crises internacionais.
A promessa de que a privatização traria competitividade e preços menores para o consumidor brasileiro parece ter se transformado em um combustível de alta octanagem apenas para o lucro das grandes corporações.

Dados recentes e análises de especialistas do setor apontam que a venda da BR Distribuidora, concluída totalmente em 2021, criou um “gargalo privado” que impede que as reduções de preço da Petrobras cheguem ao bolso do cidadão.
O cenário tornou-se crítico nas últimas duas semanas. Aproveitando-se do início dos conflitos entre Estados Unidos/Israel e o Irã, as distribuidoras promoveram aumentos repentinos: 2,5% na gasolina e expressivos 11,8% no diesel. O movimento é classificado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) como especulativo, uma vez que o Brasil não depende do petróleo do Oriente Médio e os estoques atuais foram adquiridos a preços antigos.
Explosão das margens de lucro – desde que a BR Distribuidora passou a ser a privada Vibra Energia, a dinâmica de mercado mudou drasticamente. De acordo com o Ineep, baseado em dados da ANP, as margens brutas de distribuição e revenda dispararam entre 2019 e 2025:
- Gasolina: aumento de 54,1% na margem (de R$ 0,74 para R$ 1,14/l).
- Diesel: alta de 59% (de R$ 0,66 para R$ 1,05/l).
- Gás de Cozinha (GLP): salto de 70,6% (de R$ 31,96 para R$ 54,54 por botijão).
O indicador financeiro Ebitda/m³ (lucro antes de impostos e juros por metro cúbico vendido) ilustra o abismo: enquanto sob gestão estatal a média era de R$ 66/m³, sob o controle da Vibra o valor ultrapassa os R$ 160/m³.
A estratégia de saída da Petrobras do setor de distribuição deixou a estatal de mãos atadas. Uma cláusula de não concorrência (non-compete) impede a Petrobras de atuar diretamente na distribuição até 2029.
Além disso, a Vibra detém o direito de usar a marca “Petrobras” nos postos até o mesmo ano, criando uma ilusão de ótica no consumidor que acredita estar abastecendo em uma empresa pública, quando, na verdade, alimenta o caixa de uma entidade privada.
“As distribuidoras privadas usaram a queda nos preços das refinarias para ampliar suas margens de lucro. Esse aumento repentino reflete oportunismo”, afirma Mahatma Ramos, diretor técnico do Ineep.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reforçou a crítica na última sexta-feira (13/3), afirmando que a privatização retirou a capacidade da estatal de influenciar o preço final, onerando severamente a sociedade.
Diante do que classificam como “abusividade”, o Governo Federal anunciou medidas para conter a volatilidade. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sinalizou a criação de novos tipos penais e administrativos para punir o armazenamento injustificado de combustível e aumentos abusivos, com fiscalização rigorosa da ANP.
Enquanto o governo tenta reagir, o setor de revenda em Minas Gerais já sente o peso do controle privado. O sindicato Minaspetro acusou a Vibra Energia de restringir entregas apenas para postos de sua bandeira, deixando os postos de “bandeira branca” desabastecidos. A Vibra negou a prática, atribuindo as falhas a “questões climáticas”.
Para o consumidor, resta a ironia: a Petrobras abandona a política de paridade internacional para baratear o combustível, mas o benefício é interceptado no meio do caminho por empresas que transformaram um serviço essencial em uma máquina de dividendos recordes.
Fonte: O Tempo







