Aliada a dissidentes locais, facção carioca utiliza a cidade de Rio Claro (SP) como entreposto logístico;
Historicamente considerado um território dominado com exclusividade pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), o estado de São Paulo começa a registrar fissuras em sua “muralha” criminosa. Investigações da Polícia Civil e do Ministério Público revelam que o Comando Vermelho (CV), facção com raízes no Rio de Janeiro, logrou estabelecer uma base estratégica em Rio Claro, no interior paulista.
A escolha da cidade não é casual. Com cerca de 200 mil habitantes, Rio Claro é um ponto nodal da chamada “Rota Caipira”, o principal corredor de escoamento de drogas e armas vindas da Bolívia e do Paraguai.
O avanço do CV na região teve início em 2021, impulsionado por conflitos locais. O grupo conhecido como Bonde do Magrelo, liderado por Anderson Ricardo de Menezes (o “Magrelo”), iniciou uma ofensiva contra traficantes ligados ao PCC. Composto por dissidentes e ex-parceiros da facção paulista que haviam sido “decretados” (jurados de morte), o grupo buscou no Rio de Janeiro a proteção e o suporte bélico necessários para sobreviver.
Após a prisão de Menezes em maio de 2023, a liderança da “filial” passou para Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, o “Léo Bode”. Atualmente foragido, Léo Bode comanda as operações em um modelo de “home office” diretamente do Morro Fallet Fogueteiro, na capital fluminense, onde se refugia com outros aliados paulistas.
A presença do CV já se materializa em apreensões de vulto. Em março do ano passado, a Polícia Militar localizou quase 100 kg de entorpecentes (cocaína, maconha e haxixe) em um sítio em Hortolândia, usado como entreposto. Parte da carga ostentava as iniciais da facção carioca.
Dados de inteligência apontam que a estrutura financeira do núcleo em Rio Claro é robusta:
- Movimentação Mensal: Estimada entre R$ 1,19 milhão e R$ 5 milhões.
- Principais Ativos: Tráfico de cocaína e comercialização ilegal de armas de fogo.
- Conexão Rio-SP: O grupo utiliza a proximidade com a Rodovia Washington Luís para intensificar o envio de drogas para o Rio de Janeiro.
Apesar do incômodo e das “execuções de cinema” que aterrorizaram a região entre 2021 e o fim de 2024, autoridades tratam o fenômeno com cautela. O impacto é considerado local e ainda não ameaça a hegemonia global do PCC no estado.
“Há um interesse do Comando Vermelho pelo Bonde do Magrelo, pois o primeiro auxilia com drogas, armas e formação, enquanto o segundo fornece a entrada de uma facção do Rio na ‘muralha’ de São Paulo”, aponta o relatório das investigações.
A disparidade financeira entre os rivais ainda é abissal. Enquanto o núcleo do CV em Rio Claro fatura alguns milhões, o Gaeco (MP-SP) estima que o PCC lucre cerca de R$ 10 bilhões por ano (aproximadamente R$ 1 bilhão por mês), sustentado pelo tráfico internacional e pelo domínio portuário.
A escalada da violência no final de 2024, marcada por assassinatos em sequência, forçou a cúpula do PCC a enviar emissários do alto escalão para a região. O objetivo foi “estancar a matança” e impedir que a mancha de influência do Comando Vermelho se expandisse para outras cidades da Rota Caipira.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que, desde setembro de 2024, mais de 500 suspeitos de outros estados foram presos em solo fluminense, evidenciando que a migração de criminosos paulistas para o Rio tornou-se uma via de mão dupla na estratégia de expansão das facções.
Fonte: Estadão







