Ao omitir posicionamento público sobre interdição técnica da fábrica localizada no município paulista de Amparo, governador de SP abre margem para politização e enfraquece a credibilidade do próprio órgão de Vigilância Sanitária estadual.
A interdição de linhas de produção na fábrica da Ypê, no município de Amparo (SP), acendeu um alerta que vai além dos riscos à saúde pública: expôs o calculismo político na gestão de crises no Estado de São Paulo.
Diante de uma operação técnica de alta repercussão, o silêncio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) gerou um vácuo de autoridade que acabou por desidratar o peso institucional da própria Vigilância Sanitária estadual.
A suspensão de lotes de detergentes e desinfetantes foi fundamentada em relatórios severos do Centro de Vigilância Sanitária (CVS) de SP, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
Os técnicos paulistas constataram falhas estruturais graves e riscos de contaminação na planta fabril da Química Amparo. No entanto, enquanto os servidores públicos aplicavam a lei, a principal liderança política do Estado optou por não emitir uma única palavra de endosso à operação.
Peso do Silêncio – o recuo de Tarcísio de Freitas em defender publicamente a ação fiscalizadora cobrou o seu preço nas redes sociais.
A marca Ypê, historicamente associada a setores do empresariado alinhados à direita, tornou-se centro de uma disputa narrativa. Apoiadores políticos passaram a classificar a interdição como uma suposta “perseguição ideológica” promovida por órgãos reguladores.
Ao se calar, o chefe do Executivo paulista falhou em blindar o caráter estritamente técnico do CVS de SP. Sem o aval público do governador, a narrativa de que a punição tinha contornos partidários ganhou tração na internet.
A omissão política serviu, na prática, para que o público questionasse a idoneidade e a isenção dos fiscais do próprio Estado.
O contraste com as outras esferas – o comportamento do Palácio dos Bandeirantes contrasta diretamente com a postura adotada no âmbito municipal e federal. A Prefeitura de Amparo, por meio de sua Vigilância Sanitária local, manteve o posicionamento firme ao emitir o auto de infração pelas não-conformidades de higiene.
No plano federal, ministros e técnicos da Anvisa utilizaram o caso para demonstrar que o rigor técnico independe de ideologia, citando justamente o envolvimento do governo paulista para afastar teorias conspiratórias.
A estratégia de Tarcísio evitou o desgaste direto com o empresariado do interior paulista, uma de suas bases de apoio mais sólidas.
Contudo, o preço dessa neutralidade foi alto para a máquina pública: ao não endossar os técnicos que apontaram contaminação na água e nas tubulações da fábrica, o governador sinalizou que a preservação de pontes políticas pode, eventualmente, se sobrepor à defesa enérgica das instituições de fiscalização do Estado.
Fonte: O Globo







