Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes estendem tapete vermelho para Flávio Bolsonaro, ignorando investigações de desvio de dinheiro público e áudios comprometedores que rondam o clã.
A Marcha para Jesus, historicamente consagrada como o maior evento evangélico do Brasil, transformou-se nesta quinta-feira (4), em São Paulo, no cenário perfeito para uma das demonstrações mais nítidas de hipocrisia política recente.
Sob o manto da fé e do feriado de Corpus Christi, o asfalto paulistano serviu de palco para o primeiro encontro público entre o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB). O clima de festa e a recepção pomposa, no entanto, tentaram blindar uma realidade incômoda: o cheiro de escândalo que exala dos bastidores do clã Bolsonaro ligados ao Banco Master.
O evento ocorre no momento exato em que a opinião pública assiste ao desenrolar das investigações sobre o filme Dark Horse, produção destinada a mitificar a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O que deveria ser uma peça de propaganda transformou-se em um caso de polícia.
O constrangimento que o governador e o prefeito decidiram ignorar em nome do pragmatismo eleitoral tem bases sólidas. Dias atrás, o Intercept Brasil revelou um áudio explícito no qual Flávio Bolsonaro atua como captador de recursos para a produção cinematográfica.
Na gravação, datada de 8 de setembro de 2025, às vésperas da condenação de seu pai pela trama golpista, o senador cobra textualmente o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por valores pendentes, alertando que a falta de dinheiro comprometeria o projeto.
A promiscuidade entre as altas esferas do poder político e o topo do sistema financeiro, operada diretamente por um senador da República para inflar a narrativa familiar, parece não ter chocado as lideranças religiosas e políticas presentes no evento.
Se a pressão sobre o banqueiro Vorcaro já expunha as entranhas do projeto, o caso ganhou contornos criminosos mais profundos com a recente operação da Polícia Civil de São Paulo. O alvo principal foi Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora responsável por Dark Horse.
Karina é investigada por sua atuação no Instituto Conhecer Brasil, organização que abocanhou um contrato astronômico de R$ 157 milhões com a própria Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi na capital. A polícia apura:
- Direcionamento de licitação;
- Superfaturamento;
- Desvio de recursos públicos.
É o dinheiro do contribuinte paulistano, supostamente triangulado através de favorecimentos, orbitando o ecossistema de propaganda bolsonarista.
Diante de um cenário em que a produtora do filme que exalta a família Bolsonaro é investigada por saquear os cofres da capital, e o senador cobra dinheiro de banqueiros envolvidos em polêmicas no RioPrevidência, a postura de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes beira o cinismo. Em vez de explicações ou do natural distanciamento que a ética pública exigiria, o que se viu na Marcha para Jesus foi afago, palanque e tapete vermelho.
Fonte: Terra Notícias – Portal Terra







