Dominado por União Brasil, PSD, PP, MDB e Republicanos, o maior bloco da política nacional opera na lógica da dependência programada, travando reformas estruturais para perpetuar privilégios e o uso fisiológico do dinheiro público.
O Brasil vive uma aparente contradição democrática. A cada quatro anos, milhões de eleitores vão às urnas para escolher um projeto de país, polarizado entre visões de esquerda, centro ou direita. No entanto, independentemente de quem ocupe a Presidência da República, o verdadeiro poder executivo e orçamentário acaba convergindo para as mesmas mãos: o bloco disforme, altamente pragmático e ideologicamente flexível conhecido como Centrão.
Liderado atualmente por legendas de peso como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, o Centrão consolidou-se não como uma corrente de pensamento, mas como uma engrenagem de perpetuação de poder. Sob a roupagem de “governabilidade”, o grupo aperfeiçoou uma dinâmica nociva e secular: a criação artificial de dificuldades institucionais para a venda de facilidades fisiológicas.
A Mecânica do Extorsicionismo Político: Criar Dificuldades para Vender Facilidades
A atuação do Centrão baseia-se em um modelo de negócios político bem definido: “extorsão política criando dificuldades para vender facilidades“. O grupo não possui um projeto de nação, mas sim um projeto de poder focado no controle do Orçamento da União e de cargos estratégicos na administração pública.
Para que essa engrenagem funcione, a tática é simples e impiedosa: ameaça de paralisia diante de qualquer proposta relevante do Executivo, seja ela uma simples reforma econômica, um projeto de modernização do Estado ou uma lei orçamentária, o bloco impõe resistência artificial.
A “cobrança do pedágio” para destravar as pautas de interesse público, exige-se o pagamento em moeda política: ministérios de grande orçamento, diretorias de estatais, agências reguladoras e, crucialmente, o controle sobre emendas parlamentares (como a evolução das antigas emendas individuais para as emendas de relator e de comissão).
Criação de uma falsa estabilidade após o “pagamento do pedágio”, o governo ganha fôlego temporário até a próxima votação decisiva, quando o ciclo de chantagem institucional se repete.
Esse modus operandi transforma o Poder Executivo em um refém permanente. Projetos modernizadores, que buscam desburocratizar a economia, cortar despesas ineficientes ou profissionalizar a gestão pública, só avançam se não ameaçarem os feudos eleitorais do grupo.
Engana-se quem pensa que o coronelismo ficou restrito ao Brasil Velho. O Centrão modernizou o coronelismo, adaptando-o à era do orçamento secreto e das transferências diretas, com as emendas impositivas dos parlamentares e as de bancadas partidárias, hoje em torno de R$ 60 bilhões por ano, praticamente tudo o que o governo federal tem para investir de acordo com orçamento anualPartidos como MDB, PP, União Brasil, PSD e Republicanos operam como verdadeiras federações de caciques regionais. Através da alocação de bilhões de reais em emendas parlamentares sem critério técnico rigoroso, esses deputados e senadores irrigam suas bases eleitorais com obras de fachada, pavimentação asfáltica de apelo eleitoral e compra de maquinário.
O recurso público deixa de ir para onde há maior necessidade social ou retorno econômico — como saneamento básico estruturado, saúde especializada ou educação de base — e passa a ser pulverizado segundo os interesses de reeleição do parlamentar.
Trata-se da atualização do patrimonialismo: a fusão do público com o privado, onde o Orçamento da União é tratado como propriedade pessoal dos caciques partidários para alimentar suas redes de clientelismo.
O preço cobrado pelo Centrão para manter o país “funcional” é devastador para o desenvolvimento do Brasil. Ele se reflete diretamente em três frentes:
- Desidratação de reformas econômicas: sempre que surge uma proposta de reforma tributária, administrativa ou fiscal que busque reduzir privilégios, aumentar a eficiência do gasto ou simplificar regras, o Centrão atua para blindar setores corporativos apadrinhados e manter feudos orçamentários.
- Corrupção institucionalizada e desperdício: a descentralização de recursos sem mecanismos adequados de fiscalização e controle social abre margem para o desperdício sistêmico. Obras superfaturadas, compras de emergência desnecessárias e desvios contínuos de verbas da saúde e educação são os sintomas visíveis dessa gestão fisiológica.
- Incapacidade de planejamento de longo prazo: um país refém do Centrão não consegue planejar dez anos à frente. O Orçamento fica fatiado em microinteresses paroquiais de mais de 500 parlamentares, inviabilizando grandes projetos nacionais de infraestrutura e inovação.
A hegemonia de MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos sobre a governabilidade expõe a fragilidade do presidencialismo de coalizão brasileiro. O sistema atual premia a chantagem e pune a responsabilidade fiscal e administrativa.
Enquanto o Brasil não enfrentar com coragem a necessidade de uma reforma política e orçamentária profunda — que restabeleça a transparência total sobre a aplicação das verbas públicas, reduza o peso das emendas individuais na gestão do Estado e fortaleça a fidelidade programática dos partidos —, o país continuará pagando um pedágio caríssimo por sua governabilidade, permanecendo preso às amarras do fisiologismo e do subdesenvolvimento planejado.
Por Marco Antônio Mourão – Gestor Educacional e de Pessoas, Professor aposentado, Sócio proprietário da Equipe Assessoria Educacional Ltda








