Governo de Netanyahu tolera a escalada de atrocidades praticadas por israelenses contra palestinos da Cisjordânia

Governo israelense amplia assentamentos, enfraquece mecanismos de contenção e deixa colonos radicais avançarem sobre terras e comunidades palestinas na Cisjordânia. Atenção: a Cisjordânia está próximo de explodir um novo barril de pólvora no Oriente Médio.

Na Cisjordânia ocupada, a violência dos colonos israelenses deixou de parecer uma sucessão de episódios isolados e passou a configurar um padrão que ameaça desestabilizar toda a região. Em Qusra, ao sul de Nablus, famílias palestinas passaram dias cercadas em suas próprias casas por colonos que bloquearam acessos, interromperam serviços essenciais e atacaram propriedades. Soldados israelenses chegaram a intervir, mas os agressores permaneceram na área.

O episódio é particularmente grave porque ocorre em meio a uma escalada que as próprias Nações Unidas classificam como sem precedentes recentes. Segundo o Escritório de Direitos Humanos da ONU, a violência de colonos atingiu níveis recordes em 2026, enquanto ataques contra palestinos, destruição de propriedades e deslocamentos se multiplicam. Em julho, a ONU alertou que a violência de colonos se tornou um dos principais fatores de expulsão de comunidades palestinas de suas terras

Não se trata apenas de pedras contra casas ou de confrontos episódicos. Trata-se de uma disputa territorial na qual famílias palestinas são intimidadas, propriedades destruídas, fontes de água tomadas e comunidades inteiras pressionadas a abandonar áreas onde vivem há décadas. Um relatório da ONU publicado em março afirmou que a expansão dos assentamentos e a violência de colonos vêm contribuindo para o deslocamento forçado de dezenas de milhares de palestinos.

Um Estado dividido entre conter e estimular – é importante não confundir o governo de Israel com todos os israelenses, nem ignorar que existem militares, autoridades, juristas e setores da sociedade israelense que denunciam a violência dos colonos. O próprio Exército israelense classificou como ilegal o posto instalado diante das casas palestinas em Qusra e tentou removê-lo.

O problema é que essas iniciativas convivem com decisões políticas que favorecem justamente a expansão territorial dos assentamentos.

O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, é um dos principais defensores da expansão dos assentamentos e dos postos avançados na Cisjordânia. Sua permanência na coalizão governista lhe confere influência sobre a política do governo de Benjamin Netanyahu. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional e outra figura central da direita radical, também integra a base política da qual o primeiro-ministro depende.

O resultado é uma contradição explosiva: enquanto parte das instituições de segurança tenta impedir que colonos ultrapassem determinados limites, integrantes do próprio governo promovem políticas que ampliam a presença israelense em território palestino. A ONU chegou a afirmar que ataques de colonos e forças de segurança israelenses frequentemente ocorrem em proximidade, enquanto especialistas da organização denunciaram uma escalada de violência acompanhada de impunidade. T

A impunidade também é uma forma de política – para uma família palestina que vê sua casa cercada, sua plantação destruída ou sua fonte de água tomada, a questão não é apenas quem atirou a primeira pedra. É saber se haverá proteção do Estado, investigação e punição. Quando a resposta é lenta, insuficiente ou inexistente, a mensagem transmitida é devastadora: a violência pode funcionar como instrumento para conquistar território.

Em Qusra, moradores relataram ataques recorrentes e disseram que denúncias às autoridades israelenses não resultaram em proteção suficiente. Segundo dados citados pela ONU, centenas de palestinos já foram feridos em ataques de colonos em 2026, enquanto comunidades inteiras

Também é preciso reconhecer que palestinos cometeram ataques contra israelenses e que esses crimes devem ser responsabilizados. A violência contra civis não se torna legítima por causa da ocupação ou das agressões cometidas pelo outro lado. Mas condenar ataques palestinos não pode servir de justificativa para fechar os olhos à violência praticada por colonos israelenses. O princípio precisa ser o mesmo: quem agride civis deve responder perante a lei.

A Cisjordânia pode se transformar no próximo barril de pólvora – os acontecimentos de Tal, em julho, mostraram o tamanho do perigo. Um confronto deixou quatro palestinos e dois israelenses mortos, desencadeando novas operações militares, manifestações de colonos e acusações de vandalismo e ataques contra propriedades palestinas. A ONU classificou o episódio como mais um sinal da urgente necessidade de proteger civis e impedir uma escalada.

É exatamente esse mecanismo que deveria preocupar o governo israelense: violência gera revolta; a revolta pode ser explorada por grupos armados; novos ataques provocam novas operações militares; essas operações produzem mais mortos e deslocados; e o ciclo recomeça ainda mais violento.

O Hamas e outras organizações armadas têm todo o interesse em transformar a frustração palestina em combustível para novos confrontos. Quanto mais a população civil perde a confiança nas instituições e vê suas terras sendo tomadas sem consequências para os responsáveis, maior se torna o espaço para os extremistas. Uma nova intifada não seria uma vitória para os palestinos, nem para Israel. Seria uma tragédia para ambos.

Netanyahu não pode alegar que não sabia – a responsabilidade política do governo Netanyahu precisa ser discutida justamente porque os alertas estão sendo feitos há meses.

A expansão dos assentamentos não acontece no vácuo. Ela depende de decisões administrativas, recursos públicos, infraestrutura e proteção estatal. E a violência dos colonos ocorre em um ambiente no qual setores do governo defendem abertamente uma presença israelense cada vez maior na Cisjordânia.

Ao mesmo tempo, Netanyahu governa apoiado por partidos da direita radical cuja sobrevivência política está vinculada, em grande medida, à agenda de expansão dos assentamentos. O próprio Smotrich enfrenta pressões políticas dentro de seu partido e entre setores do movimento dos colonos às vésperas das eleições israelenses previstas para outubro de 2026.

É nesse contexto que a postura do primeiro-ministro se torna especialmente preocupante. O silêncio diante de episódios como o cerco de famílias palestinas em Qusra pode ser interpretado como uma escolha política — ainda que não prove, por si só, que Netanyahu tenha ordenado ou desejado cada ataque.

É preciso fazer essa distinção. Responsabilidade política não significa atribuir automaticamente ao primeiro-ministro a autoria de cada crime cometido por um indivíduo. Significa cobrar do chefe de governo aquilo que está sob sua responsabilidade: impedir que grupos armados ajam com impunidade e fazer cumprir a lei.

O perigo de brincar com a própria segurança – Israel já enfrenta ameaças suficientes vindas de grupos armados e governos hostis. Permitir que extremistas judeus atuem como se estivessem acima da lei acrescenta uma ameaça produzida dentro do próprio sistema.

A ocupação prolongada, a expansão dos assentamentos e a violência contra comunidades palestinas não tornam Israel mais seguro. Ao contrário, podem produzir exatamente aquilo que seus próprios serviços de segurança deveriam tentar impedir: uma explosão social e política na Cisjordânia. A ONU registrou que os ataques de colonos atingiram os níveis mais elevados de sua série histórica e que a violência se tornou um fator importante no deslocamento de comunidades palestinas.

A pergunta, portanto, não deveria ser até onde os colonos podem avançar. Deveria ser até onde o governo israelense permitirá que avancem. Se Netanyahu realmente pretende preservar a segurança de Israel, precisa retirar das mãos dos extremistas o poder de decidir o futuro da Cisjordânia. Isso significa interromper a expansão ilegal de assentamentos, proteger as comunidades palestinas, investigar crimes de colonos e garantir que responsáveis por violência contra civis sejam punidos — independentemente de sua nacionalidade ou ideologia.

Brincar com a Cisjordânia é brincar com fogo. E, desta vez, o incêndio pode começar não nas mãos dos inimigos de Israel, mas nas mãos dos próprios extremistas que o governo decidiu tolerar.

Fontes; Estadão – Reuters

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