Livro de ex-comandante da Aeronáutica revela bastidores do combate ao golpe e tensão no Alvorada. Tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior detalha em obra os bastidores da crise institucional, as pressões do governo Bolsonaro e o momento em que o Exército ameaçou prender o ex-presidente
Os bastidores de um dos períodos mais tensos da história recente da democracia brasileira ganharam um relato direto e em primeira mão. No livro Eu disse não: uma trincheira antigolpista (Ed. Autêntica, 242 págs.), com lançamento marcado para setembro, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, narra o que viveu entre abril de 2021 e janeiro de 2023 no topo da Força Aérea Brasileira (FAB).

Testemunha de acusação no processo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de reclusão por tentativa de golpe de Estado, julgamento concluído no Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro do ano passado, Baptista Junior expõe a rotina de pressões e a estratégia adotada pelas Forças Armadas para resistir às investidas autoritárias.
Tensão no Alvorada: “Vou ter que lhe prender” – Um dos pontos mais dramáticos da obra descreve uma reunião no Palácio do Alvorada na qual o então presidente manifestou a intenção de cancelar as eleições e intervir no Judiciário. Diante da proposta, o então comandante do Exército, general Marco Antonio Freire Gomes, reagiu de forma contundente: “Se o senhor fizer isso, vou ter que lhe prender.”
Em seu relato, o brigadeiro relembra o impacto imediato da declaração do colega de farda: “Não é uma frase capaz de passar incólume à memória dos que estavam presentes. O ambiente foi imediatamente tomado por raro silêncio.“
O episódio, que já havia sido revelado em depoimento prestado por Baptista Junior à Polícia Federal (PF) e nos autos da Ação Penal 2668 no STF, ganha agora contornos analíticos sobre a postura das chefias militares diante do esboço de decreto para a imposição de um estado de exceção.
Estratégia – Segundo o ex-comandante da FAB, a postura mantida por ele e por Freire Gomes foi prioritariamente a de ganhar tempo para esvaziar as pressões por um rompimento institucional.
O livro revela a intensidade do assédio político sobre a cúpula militar: apenas no intervalo entre 3 de outubro e 14 de dezembro, os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica foram convocados 12 vezes ao Ministério da Defesa. De acordo com o oficial, as obrigações constitucionais das Forças foram sistematicamente desviadas ao longo de todo aquele ano para discutir o processo eleitoral.
Resistência – com quase cinco décadas de carreira militar iniciada em 1975, mais de 4.500 horas de voo como piloto de caça e filho de ex-comandante da Aeronáutica, Baptista Junior assumiu a FAB em abril de 2021. Sua posse ocorreu em meio a uma crise inédita desde a redemocratização: a demissão do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo, que culminou na saída simultânea e conjunta dos chefes das três Forças Armadas.
Ao lado de Baptista Junior esteve o general Marco Antonio Freire Gomes. Nascido em Pirassununga (SP), formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 1980 e com vasta trajetória no comando militar terrestre, Freire Gomes assumiu o Exército em março de 2022, após uma reforma ministerial em que Walter Braga Netto deixou a Defesa para ser vice na chapa presidencial de Bolsonaro, sendo substituído por Paulo Sérgio Nogueira.
Fonte: Estadão







