O descaso é um sintoma grave de uma gestão que ignora que a cultura gera emprego, renda, pertencimento e orgulho. O custo de continuar ignorando o problema já se provou infinitamente maior do que o custo de resolvê-lo.
Em uma demonstração flagrante de desleixo administrativo, ignorância cultural e incompetência de gestão, a Prefeitura de Porto Ferreira transformou o acesso a um patrimônio artístico de relevância internacional em uma verdadeira prova de sobrevivência.
Ao final de pouco mais de dez quilômetros da Estrada do Rio Corrente, repousa um museu que abriga o acervo histórico e cultural do Instituto Cultural Gilberto Chateaubriand (ICGC) – uma das coleções de arte brasileira mais importantes do país.
No entanto, quem tenta se aproximar desse tesouro nacional não encontra um caminho digno, mas sim uma barreira intransponível de lama, poeira, buracos e até um lixão a céu aberto.
Enquanto a administração municipal se esquiva de suas obrigações básicas de infraestrutura, a burocracia e a falta de visão estratégica cobram um preço alto: a asfixia da cultura e do desenvolvimento turístico local.
O retrato do descaso -a gravidade da situação deixou de ser apenas uma reclamação de manutenção rural e atingiu em cheio o prestígio cultural do município.
Recentemente, a diretora executiva do ICGC, Flávia Chateaubriand, expôs em entrevista à Rádio Comunidade FM uma realidade vergonhosa: a prestigiada exposição “Gilberto Sousa Sensorial”, organizada em homenagem ao centenário do artista e originalmente concebida para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), teve de ser suspensa e colocada em “suspenso” em Porto Ferreira.
O motivo? A total falta de condições de tráfego na Estrada do Rio Corrente. O transporte de obras de arte de valor inestimável exige logística altamente especializada e seguros de cobertura estrita. Diante do cenário de abandono da via municipal, as transportadoras especializadas simplesmente inflacionaram os preços a patamares proibitivos devido ao risco iminente de danos às obras.
Não bastasse a destruição física da pista, a estrada foi transformada em uma vitrine de abandono. Uma reportagem recente exibida pelo Jornal da EPTV 2ª Edição mostrou moradores revoltados com crateras, falta de manutenção crônica e o acúmulo de descarte irregular de lixo, expondo Porto Ferreira nacionalmente não pelo seu potencial artístico, mas pelo lixão a céu aberto que recebe os visitantes e agride o meio ambiente.
Incompetência – o nível de desleixo da Prefeitura de Porto Ferreira ficou formalmente registrado em documentos oficiais. Em resposta ao Requerimento nº 619/2026, de autoria do vereador Matheus Ribaldo Ferreira da Costa, a Secretaria de Obras e Desenvolvimento Urbano produziu uma confissão explícita de incompetência e inércia.
A Prefeitura reconhece formalmente que a Estrada do Rio Corrente é de responsabilidade estritamente municipal, possuindo inclusive cerca de 1 km inserido dentro de seu próprio perímetro urbano. No entanto, ao ser questionada sobre o planejamento de obras de pavimentação, drenagem e melhorias para os anos de 2026 e 2027, a Secretaria de Obras respondeu com inacreditável naturalidade: “O local não se encontra dentro do planejamento devido as pautas prioritárias e recursos humanos e financeiros necessários.”
A negligência é complementada pela Secretaria de Meio Ambiente e Zeladoria. Em seu ofício, a pasta limita-se a informar que a retirada de entulhos ocorre apenas uma vez por mês, e descarta sumariamente a instalação de câmeras de segurança contra o descarte de lixo e a criminalidade local. A justificativa oficial beira o absurdo técnico: alega-se que as
Porto Ferreira, amplamente autointitulada como a “Capital Nacional da Cerâmica Artística e da Decoração”, esbarra em sua própria incompetência oficial. De que serve ostentar títulos de fomento à arte se a própria administração municipal coloca uma placa invisível na Estrada do Rio Corrente dizendo que “a cultura existe, mas chegar até ela é problema seu“?
O descaso com a Estrada do Rio Corrente não é apenas um problema de engenharia viária; é um sintoma grave de uma gestão que ignora que a cultura gera emprego, renda, pertencimento e orgulho. O custo de continuar ignorando o problema já se provou infinitamente maior do que o custo de resolvê-lo.
Por Marco Antônio Mourão – fontes: EPTV Central, Rádio Comunidade 105,9 FM








