Talvez o problema seja que estrada rural não apareça tanto, não renda grandes inaugurações e, principalmente, não gere votos suficientes. Afinal, não é isso que parece importar?
O que estou relatando parece uma brincadeira de mau gosto, mas não é. Em uma cidade de aproximadamente 55 mil habitantes, localizada no interior de São Paulo — o estado mais rico da Federação — existe uma estrada rural de pouco mais de dez quilômetros que há anos espera por condições minimamente dignas de acesso.
Talvez o problema seja que estrada rural não apareça tanto, não renda grandes inaugurações e, principalmente, não gere votos suficientes. Afinal, não é isso que parece importar?
Mas voltemos ao que realmente deveria ser relevante: ao final dessa estrada encontra-se um museu que preserva a trajetória de um dos maiores colecionadores de arte brasileira do país, responsável por reunir, ao longo de décadas, um acervo reconhecido nacional e internacionalmente.
Não se trata apenas de uma coleção valiosa pela beleza das obras, mas de um patrimônio que registra momentos decisivos da história brasileira. Ali estão representados movimentos fundamentais de nossa cultura, transformações sociais, períodos de liberdade e também alguns dos capítulos mais sombrios da política nacional, retratados em pinturas, fotografias, esculturas, documentos e diferentes manifestações artísticas.
Tudo foi pesquisado, garimpado, reunido e preservado durante décadas. Mas será que isso importa? Talvez, para alguns governantes, a pergunta correta continue sendo: “Isso gera votos?”
A ironia chega a ser surreal. Para conhecer parte desse acervo, a população da própria cidade possui caminhos curiosos. Um deles é percorrer centenas de quilômetros por uma rodovia que liga um estado a outro, enfrentar aproximadamente nove horas de viagem e gastar uma quantia considerável com combustível, pedágios, alimentação e hospedagem.
Outra possibilidade é viajar de carro até um aeroporto, embarcar em um avião, voar por cerca de uma hora até a capital de outro estado e, então, deslocar-se até um museu localizado no centro daquela que já foi a capital do Brasil. Lá, o visitante poderá admirar belas paisagens, contemplar um dos cartões-postais mais conhecidos do mundo e conhecer um museu fantástico.
Tudo isso é maravilhoso, sem dúvida, mas há um detalhe incômodo: durante essa viagem, os recursos dos moradores daqui ajudam a movimentar a economia de outras cidades e de outro estado.
A alternativa seria percorrer apenas dez quilômetros e ter acesso não somente às obras, mas também à história do homem que as reuniu e preservou. Diante disso, fica a pergunta: setecentos quilômetros ou dez quilômetros, o que deveria ser mais perto?
A resposta parece óbvia, mas a realidade consegue desafiar até mesmo a lógica mais elementar.
De um lado, o visitante encontra estradas de ótima qualidade, embora fartamente pedagiadas, e chega a paisagens reconhecidas mundialmente. Do outro, enfrenta uma verdadeira prova de resistência, com lama, poeira, buracos, abandono e mais buracos.
Em vez de um cartão-postal, encontra pelo caminho um lixão a céu aberto, uma agressão à paisagem, ao meio ambiente, à saúde pública e à própria imagem da cidade. É quase como se o poder público tivesse colocado uma placa invisível na entrada dizendo: “A cultura existe, mas chegar até ela é problema seu”.
Além da questão cultural, existe outro ponto em comum entre os dois trajetos: a insegurança. O visitante pode ser assaltado em qualquer uma das viagens, mas, na estrada rural, o isolamento, a precariedade e a falta de estrutura aumentam a sensação de abandono.
E volto à pergunta que parece orientar tantas decisões públicas: isso gera votos?
Recentemente, uma reportagem assistida por milhares de pessoas, dentro e fora do país, apresentou esse acervo localizado em uma pequena cidade do interior. Entretanto, em vez de destacar prioritariamente as obras e a importância histórica e cultural do museu, a matéria acabou expondo o descaso com a estrada de acesso, o lixo acumulado e a insegurança do local.
Uma oportunidade de divulgação positiva transformou-se em uma vitrine do abandono. Isso não deveria preocupar os governantes? Isso não deveria gerar indignação, cobrança e até perda de votos?
Ao que parece, alguns administradores possuem muita sorte ou desenvolveram, ao longo dos anos, uma habilidade extraordinária para criar cortinas de fumaça. Enquanto a população é distraída por conflitos ideológicos, discursos inflamados e falsas guerras morais, temas como educação, cultura, meio ambiente, turismo e infraestrutura permanecem esquecidos.
A estrada continua ruim, o lixo permanece exposto, o patrimônio cultural fica isolado e a cidade perde oportunidades de receber visitantes, movimentar o comércio, gerar empregos e fortalecer sua identidade.
Cultura não é enfeite, luxo ou passatempo para poucos. Cultura é memória, conhecimento, desenvolvimento, pertencimento e também geração de renda.
Uma estrada adequada não beneficiaria apenas o museu: atenderia moradores, produtores rurais, trabalhadores, estudantes, visitantes e todos aqueles que utilizam diariamente aquele caminho.
Mas discutir soluções concretas exige planejamento, responsabilidade e trabalho, enquanto criar divisões costuma ser muito mais fácil.
No final, parece que pouco importa a história que está sendo preservada, a arte que poderia educar novas gerações ou o potencial cultural e turístico desperdiçado. O debate público é reduzido à pergunta sobre quem é “comunista”, quem é “de direita”, quem é “contra” ou “a favor da família”.
Enquanto todos discutem rótulos, a estrada continua cheia de buracos e a cultura permanece isolada atrás da lama e da poeira.
Talvez seja exatamente essa a estratégia: transformar a população em torcidas adversárias para que ninguém perceba aquilo que realmente está sendo abandonado.
Porque consertar estradas, preservar o meio ambiente, apoiar a cultura e facilitar o acesso ao conhecimento deveria ser obrigação do poder público. Contudo, para alguns, obrigação parece importar menos do que eleição.
Afinal, história, arte e cultura talvez não garantam votos imediatos. Já o medo, a divisão e os discursos vazios rendem palanque, barulho e muitos votos.
E assim seguimos assistindo ao absurdo: temos um patrimônio reconhecido pelo mundo, mas quase inacessível para quem vive a apenas dez quilômetros dele.
Quando uma cidade não oferece um caminho digno até sua própria cultura, não é apenas o visitante que deixa de chegar; é a própria cidade que se afasta de sua história, de seu desenvolvimento e de seu futuro.
Por Mário Irineu Salviato – Produtor Rual e Presidente do Instituto AviS







