Apenas sete meses após assumir o poder, presidente de direita José Antonio Kast enfrenta recorde de desaprovação (65%) diante do avanço do desemprego, estagnação econômica e aumento na segurança pública.
Apenas sete meses após assumir a presidência do Chile com a promessa de recuperar o crescimento econômico e combater a criminalidade, o presidente de direita José Antonio Kast enfrenta uma rápida e severa deterioração de sua popularidade. Pesquisa realizada pelo instituto Cadem aponta que a desaprovação ao seu governo atingiu a marca recorde de 65%, enquanto a aprovação despencou para 30%. O desgaste reflete o abismo entre as expectativas de mudanças imediatas criadas na campanha de 2025 e a piora concreta na qualidade de vida dos chilenos.
Especialistas e analistas políticos apontam que a frustração é generalizada e decorre da combinação entre o descumprimento das promessas eleitorais e o agravamento dos indicadores sociais, especialmente o o aumento do desemprego e queda na renda dos trabalhadores, gerando aumento da pobreza em menos de um ano de adminitração da direita no país.
Desemprego em alta – o principal fator de insatisfação popular é a deterioração do mercado de trabalho. A taxa de desemprego atingiu 9,6% no trimestre encerrado em agosto, aproximando-se de um milhão de pessoas sem trabalho, um aumento de 13% em relação ao ano anterior. A crise econômica é reforçada por projeções desfavoráveis:
- Projeção do PIB: economistas consultados pelo Banco Central reduziram a estimativa de crescimento do PIB para 0,2% em 2026. O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou sua previsão de 2,4% para 0,6%.
- Mineração: setor vital para o país, a produção mineradora encolheu 17,4% em agosto na comparação anual, impulsionada pela queda na extração de cobre.
- Percepção Social: 69% dos entrevistados pela pesquisa Cadem consideram que o Chile está no caminho errado, e 68% declaram pessimismo em relação ao futuro do país.
A pressão sobre a gestão econômica levou a cobranças públicas dentro da própria base aliada. A presidente do Senado, Paulina Núñez (Renovação Nacional), questionou abertamente a eficácia dos programas de geração de emprego, exigindo resultados imediatos do ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, antes que os efeitos da recente megarreforma econômica possam ser sentidos.
Principal carro-chefe da campanha de Kast, a segurança pública também se tornou foco de frustração. Cerca de 70% da população relata medo de ser vítima de crimes.
Diante de severas críticas — inclusive de governistas — à sua proposta de reforma constitucional, que previa a criação de novos estados de exceção e a ampliação de poderes do Executivo, o governo recuou e retirou o projeto do Congresso. O episódio expôs a falta de articulação e coordenação política no gabinete:
- Incapacidade de negociação: Críticos e sociólogos apontam que medidas de impacto visual, como a abertura de valas nas fronteiras e o uso de drones, não alteraram a percepção de insegurança da população.
- Perda de apoio da direita: Em setembro, a aprovação do presidente entre eleitores alinhados à direita caiu sete pontos, fixando-se em 72%, sinalizando que a insatisfação ultrapassou a oposição tradicional.
Cenário Regional – a insatisfação popular transbordou para as ruas. Recentemente, protestos na Plaza Italia, em Santiago, relembrando o “estallido social” de 2019, resultaram em confrontos com as forças policiais. Pesquisas indicam que 68% dos chilenos acreditam que as demandas sociais levantadas há sete anos continuam sem resposta.
O desgaste do governo chileno insere-se em um contexto regional mais amplo de rápida perda de prestígio de lideranças conservadoras e de ultradireita na América Latina, como observado com Keiko Fujimori no Peru e Javier Milei na Argentina.
Fonte: Valor Econômico e Clarin







