No dia 2 de setembro de 2018, há um ano, um incêndio de grandes proporções destruía o Museu Nacional do Rio de Janeiro, um dos mais importantes do país. O prédio, criado por D. João VI em 1818, possui mais de 200 anos, e um acervo de mais de 20 milhões de itens, sendo considerado o maior museu de história natural do Brasil e um dos principais do mundo. Faziam parte do acervo peças como o Crânio de Luzia (fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, com cerca de 11 mil anos), uma ampla coleção de artefatos egípcios, o meteorito Bendegó (maior objeto do tipo já encontrado em solo brasileiro), entre outros objetos.
Meses depois, em abril deste ano, a Catedral de NotreDame, um dos principais símbolos da França, sofreu algo parecido. Um grande incêndio atingiu a igreja de mais de 800 anos e destruiu boa parte de sua construção, como por exemplo, a Flecha (torre central), que despencou horas depois do início das chamas. Esses dois eventos sensibilizaram o mundo e acenderam um debate sobre a importância da preservação do patrimônio e da história.
No aniversário de um ano da tragédia no Museu Nacional e tendo se completado cinco meses do incêndio na Catedral parisiense, conversamos com o Chefe de Seção de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural de Porto Ferreira, Vinicius Carlos da Silva, para entender melhor as atuais condições do Museu Histórico Pedagógico “Professor Flávio da Silva Oliveira” e a importância da preservação do patrimônio histórico na cidade.
Felipe Lamellas: O que o incêndio no Museu Nacional pode nos ensinar?
Vinicius Carlos da Silva: Acho que uma coisa muito triste que percebemos é a falta de educação patrimonial e de apreço pela história. Isso acontece porque, infelizmente, não temos um vínculo muito grande com a nossa própria história. A gente nunca olhou muito bem para ela, e o problema é que isso se estende até os dias hoje. Outro problema é um descaso geral no que tange a preservação patrimonial. Isso faz com que NotreDame, por exemplo, tenha recebido muito mais recursos, inclusive de brasileiros que doaram uma quantia enorme, do que o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Reclama-se dos governantes, porém, a própria população não se vê como atuante nesse sentido. Fatos assim revelam um descaso para com a nossa história e uma ideia elitizante de cultura.
Felipe Lamellas: Quais são os problemas que o museu tem hoje?
Vinicius Carlos da Silva: O museu apresentavaalguns problemas estruturais, quando de minha contratação, por conta da idade do local, em especialna parte da iluminação (que já consertamos) e principalmente da própria estrutura física do prédio. Outro ponto é a questão dos itens alocados no Museu Municipal. Por isso é preciso chamar a atenção da comunidade para que ela entenda que, o que se prioriza nesse momento, é sanar as dificuldades mais urgentes do museu e procurar fazer a historicização de parte significativa dos objetos e documentos que estão aqui.
Felipe Lamellas: Qual o projeto que existe para o Museu?
Vinicius Carlos da Silva: Estamos pensando em dois eixos: o eixo estrutural e o administrativo. O estrutural é a reforma, baseada em um projeto completo para o museu, e outroprojeto que pense na questão do orçamento. Algumas áreas, por exemplo, são mais necessárias nesse quesito, essas serão sanadas primeiro. O segundo eixo, o administrativo, buscarásolucionar pendências que, por diversos motivos, acabaram ficando em aberto, o que é natural e compreensível. Destaco aqui o trabalho junto ao SISEM, no qual buscamos estreitar nossos vínculos com o governo estadual. Nesse sentido queremos colocar em prática a ideia de um plano museológico que faça de fato o museu ser histórico-pedagógico, porém de maneira mais adequada aos nossos tempos. A nossa administração pretende com isso desenvolver no município uma educação patrimonial, ou seja, várias das ações que nós fazemos, como a participação em programas de rádio, textos nos jornais, visitas guiadas, entre outras coisas, visam a educação patrimonial.
Felipe Lamellas: O que é o plano museológico?
Vinicius Carlos da Silva: É um estudo de potencialidades e defasagens que um museu possui. Assim, pensamos segundo as condições concretas de nosso museu, através de questionamentos como “o que é melhor fazer?”. Dessa maneira, analisamos o acervo de maneira realista “ah, temos muito itens importantes, o ideal é que tenhamos mais salas de exposição”, por exemplo. Se você cria essa ideia, de fortalecer o plano museológico, e vale ressaltar que o nosso precisa ser atualizado, você acaba melhorando o conceito de espaço museológico. Museus com menos coisas a serem expostas, por exemplo, não precisam de tantas salas e são mais adequados a cidades menores. E é o plano museológico quem nos dá essa dimensão.
Felipe Lamellas: Qual a importância da educação patrimonial e do plano museológico?
Vinicius Carlos da Silva: Quando você faz esse tipo de movimento (plano museológico) você dá autonomia para a instituição museu, e dessa maneira, retira questões políticas que possam estar vinculadas de uma ou outra forma ao cotidiano do local. Assim o museu consegue perpassar administrações e até chefias, sem sofrer nenhuma ou pouca instabilidade. Há exemplos na região, como no caso da cidade de Sertãozinho, que criou todo um aparato para a preservação de sua história. Nossa ideia é tirar o caráter personalista da gestão do Museu Municipal, uma vez que, se você está seguindo um plano já preconizado pelas pessoas do município e pelo SISEM isso ajuda a preservar a nossa história de maneira contínua. Nossa ideia é fazer toda a regulamentação e criar esse vínculo com a comunidade,tornando o museu muito mais forte do que a minha administração ou das pessoas que virão depois de mim.
Felipe Lamellas: O Museu possui um bom potencial?
Vinicius Carlos da Silva: Sim, ele tem um bom potencial. Mas eu acredito que o grande trabalho que precise ser feito agora é o de historicização dos itens que estão aqui. Um ponto que seria interessante chamar a atenção é em relação aos povos indígenas, se você pensar é assustador que se tenha objetos aqui que pertenciam a essas civilizações e nenhum estudo sobre elas. Outro ponto seria em relação às populações negras que aqui viveram, existe uma grande defasagem sobre a escravidão na região, como se nem tivesse ocorrido. Mas os itens devem ser melhor avaliados, temos documentação oficial, itens da ferrovia, a própria hemeroteca. A potencialidade é muito grande, porém muito pouco explorada ainda.
Felipe Lamellas: Muitas pessoas ignoram a importância desse espaço na comunidade. Como mudar essa visão e garantir a devida importância ao patrimônio histórico?
Vinicius Carlos da Silva: Nos meses que eu estou aqui, percebo que existe muita desinformação, de maneira geral. Não podemos nos esquecer de que existe certo pensamento geral quanto ao setor público que não é muito positivo. Algumas pessoas já vieram me questionar, questionar o meu trabalho, questionar os motivos pelos quais as exposições estão desmontadas, etc. Há também uma tentativa de insinuar que o museu não está funcionando, numa visão bastante limitada e enviesada, para não dizer tendenciosa. Nesses casos costumo explicar o que estamos fazendo e as potencialidades do museu, o que tem sido muito bem aceito. O que existe é uma falta de educação patrimonial, tanto dos mais velhos quanto da geração mais nova. Aqueles ainda estão muito presos ao um tipo de história mais memorialista, e estes, em muitos casos, sequer conhecem o local. Além disso, o Museu precisa se atualizar e se problematizar. Por exemplo, a sala de artigos biológicos (Manuel Prereira de Godoy) tem várias peças que não são da fauna local, e sim, de regiões como o Mato Grosso, Amazonas, por exemplo. Isso já não cabe mais nos tempos de hoje, temos outra concepção de museu. Acredito que o museu tem que ser um espaço que deve ser ocupado, um local de convívio com a população, de inclusão.
Felipe Lamellas: Quais são suas perspectivas para o futuro do Museu?
Vinicius Carlos da Silva: Eu sou bastante otimista. Acredito que as ideias que nós temos, de trazer o museu para mais perto da população, estão dando certo. Temos as visitas guiadas que envolvem um trabalho crítico quanto ao exposto, como a exposição da Revolução Constitucionalista de 1932, que tem se mostrado enorme sucesso. Minha ideia é tornar o museu mais acessível e acolhedor a novos públicos. Nós iremos fazer um trabalho de grafitagemno espaço externo com os itens da história local e também usar o espaço para várias idades, através de projetos que nós queremos que saiam do papel. No entanto, como disse anteriormente, devemos cuidar das questões mais urgentes. Seria muito mais fácil apenas nos focarmos no que aparece e dá “IBOPE”, porém, seria muito antiético de minha parte não buscar resolver o que precisa ser resolvido. Acredito que assim despertaremos as pessoas para conhecer nossa (s) história (s), que são múltiplas e merecem seu lugar na memória. Dar visibilidade ao local é importante para que as pessoas visitem o museu e questionem o que já foi aprendido, despertando assim o seu próprio senso crítico e a sua autonomia. A ideia é trazer essa história não contada para o espaço do museu e despertar o interesse na população pela nossahistória, solidificando nossa identidade enquanto ferreirenses.
Por Felipe Lamellas – Graduando em Comunicação Social: Jornalismo na Universidade Estadual Paulista "Júlio Mesquita Filho" em Bauru-SP. Professor de História no Cursinho Pré-Vestibular Gratuito "Principia". Apresentador do programa Intercomunica na Rádio Comunidade FM. Colaborador do site https://www.portoferreirahoje.com.br







