A desigualdade social e o acesso desigual à educação são características marcantes de um país economicamente dependente, dentre os quais o Brasil se encaixa. Evidente que tais problemas assolam as populações de renda mais baixa, a classe trabalhadora e seus filhos. Em uma perspectiva de mitigar o problema, as organizações de esquerda, fazendo a leitura correta da realidade, se inseriram nesses espaços desde os anos finais da ditadura, ajudando na organização social dos bairros pouco assistidos pelo poder público. Assim, cursinhos populares, centros comunitários e demais organizações culturais eram sinônimo da presença da esquerda através de atuações coordenadas por seus partidos ou correntes.
Focando o recorte na questão educacional, no decorrer dos anos 1980, 1990 e com resquícios até a atualidade, cursinho popular era sinônimo da esquerda, hoje a educação vem sendo invadida em todas as frentes pelos projetos da direita, incluindo suas vertentes mais revisionistas e conservadoras. No campo institucional a nova BNCC, aprovada sob os auspícios da OCDE, entidades bancárias e organizações sociais privadas como Instituto Ayrton Senna e a Fundação Lemann marcam a destruição da educação por perspectivas críticas e seu total alinhamento aos interesses do mercado, substituindo conteúdos outrora obrigatórios por discursos ideológicos voltados ao empreendedorismo, a individualização, a própria culpabilização pela miséria, e a aceitação das desigualdades como naturais. Não é coincidência que sua aprovação tenha sido acelerada, juntamente a cortes de direitos trabalhistas e previdenciários, no governo Temer, logo após o golpe de 2016. Tampouco podemos menosprezar como o controle das pautas sobre a educação continuam sob a influência de tais grupos, com a eleição de candidatos formados pelo RenovaBR e RAPS (inclusive em partidos de esquerda), os quais votam de acordo com os interesses de seus formadores não só na educação, mas na economia de modo geral, como o demonstra a atuação de Tabata Amaral na Reforma da Previdência.
Institucionalmente não podemos esperar quaisquer melhoras enquanto os governos continuarem aliados aos interesses das elites nacionais e internacionais, nem haveria meios para alguma mudança enquanto o Estado continuar refém do teto de gastos e da responsabilidade fiscal. Porém, o problema vai para além do campo institucional, na chamada educação informal ou de iniciativa popular, a direita também adentra com força esse campo. Lançando mão de técnicas sofisticadas e do financiamento facilitado que tem pelas ideias que defende, a direita conservadora logrou popularizar sua ideologia que há 20 anos atrás seriam consideradas lunáticas. Baseados no mais baixo revisionismo histórico, projetos como o Brasil Paralelo atuaram como apoio ideológico para o desenvolvimento da tendência política que impõe como únicas alternativas o liberalismo econômico extremo com viés elitista e educado ou o liberalismo econômico extremo com tendências e discursos fascistas diretos e menos disfarçados.
A nova empreitada do grupo é adentrar nas regiões carentes e divulgar por lá sua ideologia, conforme atesta a parceira que buscam firmar com o G10 favelas, não seria surpresa se outras organizações ideologicamente alinhadas com a direita, mesmo a mais “moderada”, não buscassem adentrar nos setores populares fornecendo bolsas e outras formas de propiciar uma educação que busque condicionar ideologicamente o povo aos ditames do capital. Meios financeiros para tanto não faltam, e a institucionalidade, os projetos e alinhamento que o próprio governo toma na entrega cada vez maior do país aos interesses do capital, impulsiona indiretamente esses projetos. Não nos enganemos, isso não é por acaso, a ofensiva ideológica da direita cumpre papel essencial no período que já vivemos e que deve se aprofundar: o da superexploração do trabalho e cortes radicais de direitos sociais, ela servirá como uma barreira para evitar que as condições ao qual o povo brasileiro será submetido ocasione revoltas que pudessem colocar o projeto exploratório em perigo.
A esquerda, por sua vez, parece vislumbrar melancólica a tais desdobramentos, assusta-se com a “aberração contraditória” do pobre de direita, enquanto as condições objetivas que sustentam o desenvolvimento de tal “aberração” se desenvolvem debaixo de seu nariz. Isso acontece porque, ao que tudo indica, foi justamente a esquerda quem mais comprou a ideologia liberal burguesa. Foi a esquerda que a partir dos anos 2000 começou a recuar de suas atividades sociais e de base em favor de esperar um investimento institucional, afastou-se de sua classe e criou um vácuo que foi muito bem aproveitado por instituições religiosas e agora pelo conservadorismo no geral. A esquerda esqueceu como atuar por fora das instituições, esqueceu o significado de um termo que antes lhe era muito claro: militância.
A militância foi quem fez a esquerda crescer desde sua atuação durante a Ditadura Civil-Militar, julgava ser uma forma concreta de atuação pois estava submetida por uma ditadura. O erro atual é acreditar que a ditadura acabou, foram-se os militares, continua a ditadura do capital e ela fará de forma inescrupulosa uso de todas as artimanhas possíveis para torcer o sistema republicano, democrático e eleitoral a seus interesses, independente da aparência democrática do regime. Que 2016 sirva de exemplo, e acima de tudo aprendizado, a única forma de qualquer vertente de esquerda ter chance de atuar politicamente tanto dentro como fora do regime é construindo uma base social o mais orgânica possível, a qual se faz através da militância, da atuação e da organização independente da instituição. Não dá mais para esperar vir de cima o apoio para nossas atividades, muito menos cobrar desenvolvimento espontâneo de consciência daqueles que julgamos ser naturalmente nossos aliados, é hora de se organizar e pôr a mão na massa.
*Rafael Elizandro Mataruco: Aluno do último semestre de licenciatura em História pelo Centro Universitário Barão de Mauá (Ribeirão Preto).







