Operações contra o crime organizado expõem a falácia dos que tratam a fraude fiscal como “resistência ao Estado”
“Precisa ver como sonegar isso.” A frase, flagrada em escuta da Operação Carbono Oculto, não saiu da boca de um pequeno comerciante indignado com a burocracia brasileira. Foi dita por investigados que adulteravam gasolina e movimentavam bilhões de reais a serviço do crime organizado que atua em vários estados e municípios do país.
O caso desmonta, de forma didática, a narrativa cínica de que sonegar impostos seria um gesto de coragem contra a “espoliação estatal”.
Segundo as investigações, o esquema envolvia postos de combustíveis em dez estados, movimentando R$ 52 bilhões e sonegando, ao menos, R$ 7,6 bilhões em tributos federais, estaduais e municipais.
Paralelamente, o crime organizado utilizava fintechs e a “Farialemers” para controlar fundos de investimento com patrimônio de dezenas de bilhões reais, em plena Faria Lima, coração financeiro do país. Fintechs e maquininhas de cartão também ajudavam a mascarar mais de R$ 50 bilhões em transações não rastreáveis.
O caso tem paralelo com outro escândalo recente: a prisão do empresário Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma, em operação do Ministério Público de São Paulo. Mesmo diante de acusações de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e movimentações bilionárias ilícitas, não faltaram vozes a tratá-lo como “vítima” ou “herói” por supostamente enfrentar o peso da carga tributária brasileira.
É esse o ponto central da crítica: transformar o sonegador em mito. Para parte da sociedade, aquele que “passa a perna” no fisco seria mais esperto, um vencedor contra o Estado gastador.
O que se ignora, porém, é que cada real sonegado não sai do bolso de um burocrata ou de um político no poder, mas da população mais pobre que usa e precisa do bem público como: a saúde, a educação, a iluminação, a infraestrutura e tantos outro servoços fornecidos pelo Estado. E que o empresário “esperto” cria concorrência desleal contra quem cumpre as regras, corroendo ainda mais a confiança no sistema.
Os casos desta última semana serve como alerta. Quando se aplaude a sonegação como forma de “rebeldia”, abre-se espaço para que organizações criminosas usem a mesma lógica para enriquecer — com impacto devastador na vida coletiva.
No fundo, o mal que os bilhões sonegados pelas organizações criminosas causam não é diferente do mal provocado pela elite que se julga acima da lei.
Não há heroísmo em sonegar. Há crime, desigualdade e corrosão social. E é isso que precisa ser dito com todas as letras: pagar imposto não é opção, é dever — e quem frauda deve ser punido, seja um empresário engravatado na Faria Lima ou um criminoso juramentado em um posto de gasolina.
Fonte: Uol, Estadão e Folha de S. Paulo