Acesso à informação, novos atores sociais e engajamento além das urnas ampliam a participação política no país, mas – uma parte da elite política, da imprensa e a Big Techs usam utilizam essa politização para criar bolhas digitais, desinformação e ganhar dinheiro e votos.
A ideia de que o Brasil vive hoje um processo de politização, e não apenas de polarização, vem ganhando força em análises acadêmicas e no debate público. O argumento central é que a sociedade brasileira está mais engajada politicamente, com participação que vai muito além do voto, ainda que isso traga também novos desafios e tensões.
Um dos pilares dessa tese está na democratização da informação. Com a internet e, sobretudo, as redes sociais, o debate público deixou de ser controlado quase exclusivamente pelos grandes veículos de comunicação. Hoje, qualquer cidadão pode compartilhar opiniões, criar conteúdo e interagir diretamente com figuras públicas. Esse processo ampliou o espaço de vozes no debate político, incluindo grupos historicamente marginalizados e excluídos do debates políticos, seja nos municíos, estados, país e no mundo, que encontraram plataformas para se organizar e reivindicar mudanças.
Além disso, o engajamento político ultrapassou as urnas. Protestos de rua, campanhas digitais, boicotes e o ativismo online se consolidaram como novas ferramentas de mobilização para todos os tipos de ideologias e costumes, sinalizando que a política se tornou parte do cotidiano de parcelas cada vez maiores da população.
No entanto, a tese enfrenta resistências. Para críticos, as redes sociais também contribuíram para a criação de “bolhas ideológicas”, onde algoritmos reforçam visões pré-existentes, dificultando o diálogo entre diferentes perspectivas. Outro ponto é a disseminação de fake news e narrativas populistas, que transformam a participação em um terreno fértil para discursos simplistas e dicotômicos, reforçando tensões.
Há ainda a questão da personalização da política, em que a lealdade a líderes específicos se sobrepõe a ideias e propostas. Esse fenômeno tende a alimentar a polarização, transformando adversários em inimigos e reduzindo o espaço para consensos.
Politização e polarização não são excludentes. A primeira trouxe mais diversidade e participação ao debate público, mas também intensificou as divisões sociais. O Brasil vive, assim, um momento em que maior engajamento político convive com uma arena marcada por disputas acirradas e, muitas vezes, conflituosas, frutos das desigualdades sociais e de oportunidades, além do ressentimento daqueles que não gostam de dividir os espaços e a renda do país com os mais pobres.
Por Marco Antônio Mourão
