Grandes firmas de verificação são criticadas por aprovar ativos inexistentes; empresas alegam sigilo e limitações técnicas.
A credibilidade do sistema de auditoria independente no Brasil enfrenta um de seus momentos mais críticos. Gigantes do setor, conhecidas como Big Four, estão sob fogo cruzado após a liquidação do Banco Master e da Reag Gestora revelar que balanços aprovados sem ressalvas continham dezenas de bilhões de reais em ativos fictícios. O caso levanta um questionamento central no mercado financeiro: qual a eficácia de uma auditoria que não detecta a inexistência física do patrimônio que declara conferir
O Abismo entre o papel e a realidade – no Banco Master, a KPMG e a PwC chancelaram demonstrações financeiras que incluíam R$ 19,5 bilhões em cotas de fundos e R$ 6,7 bilhões em créditos consignados falsos. Embora a KPMG tenha classificado os ativos como “Principais Assuntos de Auditoria” devido à “incerteza de precificação”, o parecer final foi positivo. Meses depois, o Banco Central descobriu que os ativos simplesmente não existiam — uma fraude confirmada por amostragem básica de CPFs que as auditoras não realizaram.
Cenário semelhante ocorreu na Reag Gestora, onde EY, PwC e Crowe validaram laudos de R$ 45,5 bilhões em créditos de carbono sobre terras públicas na Amazônia. A investigação apontou que as terras pertenciam à União e os créditos não possuíam certificação oficial.
Críticas – órgãos de controle criticam a postura das firmas, acusando-as de utilizar linguagem técnica ambígua para “cobrir o traseiro” sem alertar investidores. O argumento principal é que as normas internacionais exigem que o auditor busque evidências independentes (confirmações externas e inspeções) e não apenas aceite os dados fornecidos pelo cliente. A crítica é que a auditoria se tornou uma formalidade cara que falha em sua função primordial: garantir que o dinheiro declarado realmente existe.
Defesas – as empresas de auditoria rebatem as críticas com argumentos técnicos e jurídicos:
- Sigilo Profissional: KPMG e PwC invocaram regras de confidencialidade e ética profissional para não comentar casos específicos de ex-clientes, argumentando que a responsabilidade primária pelos balanços é da administração das empresas.
- Escopo Reduzido: a EY defendeu-se no caso da Reag afirmando que seu serviço limitou-se à “checagem de fórmulas matemáticas” e não à verificação da origem ou existência dos ativos.
- Conformidade Normativa: a Crowe sustenta que seus trabalhos seguiram estritamente as normas brasileiras e internacionais vigentes à época das análises.
Enquanto o debate avança, a conta do prejuízo recai sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), investidores e, potencialmente, o erário público, através do impacto em bancos estatais como o BRB. Até o momento, as firmas continuam operando sem sanções administrativas graves pelos episódios recentes.
Fonte: Poder 360







