Busca por custos menores, incentivos fiscais e menos gargalos urbanos acelera a interiorização industrial e cria novas oportunidades fora dos grandes centros
A migração de indústrias das capitais para o interior do Brasil tem se intensificado nas últimas décadas e já transformou o perfil do emprego industrial no país. Em 2022, 54,4% dos postos de trabalho da indústria estavam fora das regiões metropolitanas, segundo dados oficiais, revertendo um cenário que, nos anos 1980, concentrava a maior parte das vagas nos grandes centros.
O movimento tem impacto direto na vida de trabalhadores como a engenheira de produção Letícia Lemos Martins, de 26 anos, que voltou a morar em Passos, no Sul de Minas Gerais, após a inauguração da fábrica da Heineken na cidade. Aberta em 2025, a unidade recebeu investimento de R$ 2,5 bilhões e emprega atualmente cerca de 350 pessoas.
Estudo do Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP aponta que a virada ocorreu em 2014 e ganhou força com a elevação dos custos nas capitais, como terrenos caros, trânsito intenso, mão de obra mais onerosa e maior pressão sindical. Estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul lideraram esse processo de interiorização.
Apesar disso, o país segue em desindustrialização. A participação da indústria de transformação no emprego total caiu de 27,7% em 1986 para 15,1% em 2022. Segundo os pesquisadores, o interior sofreu menos com essa perda, funcionando como um amortecedor do recuo nacional.
A indústria automobilística ilustra bem a mudança. A montadora chinesa GWM inaugurou recentemente uma fábrica em Iracemápolis, no interior paulista, com previsão de até mil empregos. A chegada da empresa permitiu a trabalhadores como Gabriele de Oliveira Pereira, de 27 anos, trocar empregos precários por vagas industriais com salários mais altos e melhor qualidade de vida.
Incentivos fiscais oferecidos por Estados e municípios também pesam na decisão das empresas, mas especialistas alertam que a interiorização, sozinha, não é suficiente para reverter a desindustrialização. Para isso, defendem redução do custo do capital, melhoria da infraestrutura logística e fortalecimento das cadeias produtivas nos novos polos industriais.
Fonte: bbc.com







