Pesquisa interna do Sebrae mostra que 47% dos empreendedores avaliam que mudança na jornada de trabalho não afetará suas empresas; percepção varia conforme segmento econômico
Quase metade dos responsáveis por pequenos negócios no Brasil — 47% — acredita que o fim da escala 6×1 de trabalho não trará nenhum impacto para suas empresas. Outros 9% chegam a ver possibilidade de efeito positivo com a mudança.
Os dados são de uma pesquisa interna do Sebrae, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, realizada no final de 2024 com microempreendedores individuais (MEI), microempresas e empresas de pequeno porte, e que não havia sido divulgada à imprensa. A margem de erro é de um ponto percentual, com intervalo de confiança de 95%.
O levantamento foi realizado em meio ao debate no Congresso Nacional sobre propostas que podem levar ao fim da escala 6×1, com a redução da jornada semanal para 40 ou 36 horas. A discussão conta com amplo respaldo popular: pesquisa Genial/Quaest, divulgada em dezembro de 2024, indica que 72% da população apoiam a mudança, contra 24% contrários.
Entre os respondentes da pesquisa do Sebrae, 32% estimam impacto negativo e 12% não souberam opinar. A percepção, portanto, varia de forma relevante conforme o porte e o setor do negócio.
MEI menos preocupados; empresas maiores sentem mais
O perfil dos entrevistados revela uma divisão clara entre os microempreendedores individuais e os demais. Entre os MEI, 53% afirmam que a alteração não afetará seus negócios, 11% projetam impacto positivo e apenas 23% veem consequências negativas. O número reflete, em parte, que muitos MEI operam como trabalhadores autônomos sem equipes fixas, tornando a regulação de jornada menos diretamente aplicável ao seu dia a dia.
Já entre as micro e pequenas empresas (MPE), o cenário é mais preocupante: 44% estimam impacto negativo, contra 40% que avaliam não haver impacto e 7% que enxergam possibilidade positiva. Ou seja, entre os negócios que contam com funcionários registrados, a balança pende para a preocupação.
Alimentação, comércio e varejo no centro das preocupações
Quando se observa o recorte por setor econômico, as diferenças se tornam ainda mais pronunciadas. Os segmentos que operam com maior intensidade de mão de obra, jornadas prolongadas ou funcionamento nos fins de semana concentram as maiores proporções de empreendedores pessimistas com a mudança.
No setor de serviços de alimentação — restaurantes, lanchonetes, bares e similares —, 64% dos entrevistados projetam impacto negativo, enquanto apenas 24% avaliam que não haverá impacto ou que ele será positivo.
É o segmento com maior proporção de preocupação entre todos os analisados. Pet shops e serviços veterinários aparecem logo atrás, com 59% projetando efeito adverso, seguidos pela indústria alimentícia (58%), comércio varejista (57%), setor de moda (55%), energia (51%), turismo (51%) e oficinas e peças de automóveis (50%).
Academias, logística e economia criativa veem menos riscos
No polo oposto, há segmentos nos quais predomina a avaliação de que o fim da escala 6×1 terá efeito neutro ou até benéfico para os negócios. O destaque vai para academias e atividades físicas, onde 75% dos entrevistados dizem não esperar impacto negativo ou projetam efeito positivo, contra apenas 11% que veem prejuízo. A hipótese é que uma eventual ampliação do tempo livre dos trabalhadores pode aumentar a demanda por serviços de lazer e bem-estar.
Outros setores com percepção majoritariamente tranquila incluem economia criativa (66% de respostas neutras ou positivas), beleza (63%), logística e transporte (62%), educação (60%), serviços pessoais (58%), serviços empresariais (56%), indústria de base tecnológica (54%), saúde (52%), agronegócio (51%) e outras atividades industriais (51%).
Sebrae defende diálogo e produtividade como caminho
Para o presidente do Sebrae, Décio Lima, o debate sobre a jornada de trabalho precisa envolver ampla negociação. “Entendemos que as mudanças na jornada devem ser feitas com diálogo e a partir de uma negociação com amplos setores da sociedade, garantindo segurança jurídica e sustentabilidade para empresas e trabalhadores”, afirmou.
Lima também vê potencial positivo na reforma, se conduzida de forma adequada. Segundo ele, o fim da escala 6×1 “pode proporcionar um aumento da oferta de emprego e avanços em produtividade”. Para isso, no entanto, o dirigente defende que as empresas sejam estimuladas a investir em tecnologias e novos métodos de trabalho, em vez de simplesmente redistribuir as horas existentes. “Em vez de focar na simples compensação de horas, as empresas devem ser estimuladas a investir em tecnologias e métodos de trabalho que aumentem a produtividade”, completou.
A pesquisa do Sebrae é um dos primeiros levantamentos a mapear sistematicamente a percepção dos pequenos negócios sobre o tema, e seus dados deverão alimentar o debate legislativo à medida que o Congresso avança na votação das propostas em discussão.
Fonte: UOL – Fim da 6×1: Maioria dos empreendedores não vê impacto negativo, diz Sebrae







