Testemunhos mostram como o regime iniciado em 1976 instaurou repressão, desaparecimentos e marcou famílias para sempre
Na madrugada de 24 de março de 1976, a Argentina entrava em um dos períodos mais sombrios de sua história. O golpe militar, que derrubou o governo de Isabel Perón, foi inicialmente recebido com incerteza por parte da população, mas logo revelou um cenário de violência e repressão sistemática.
A freira Aurora Álvarez lembra com precisão do dia em que tudo começou. Ela acordou com a ligação de uma colega que trabalhava no Ministério da Defesa e ouviu a frase que confirmava a mudança de poder. Sem rádio ou notícias imediatas, a dimensão do que acontecia ainda não estava clara naquela manhã.
Na época, Aurora atuava como orientadora em uma escola e afirma que, nos primeiros momentos, a rotina parecia apenas levemente alterada. Ainda assim, sinais de inquietação começaram a surgir, principalmente entre pessoas politicamente ativas, como sua irmã Teresa.
O clima de tensão se intensificou rapidamente. Casos de desaparecimentos e mortes começaram a atingir pessoas próximas. Conhecidos sumiam sem explicações, enquanto outros eram encontrados mortos, revelando o avanço da repressão promovida pelas Juntas Militares.
Em novembro daquele mesmo ano, a violência chegou diretamente à família. Teresa, então com 21 anos, foi levada de casa por agentes do regime durante a noite. O episódio marcou definitivamente a vida de Aurora e de seus familiares.
Segundo ela, aquele momento dividiu a história da família em antes e depois. Além da dor, veio o isolamento. O medo dominava a vizinhança, e o silêncio se tornou regra. Ninguém perguntava, ninguém comentava, numa tentativa de evitar qualquer associação com vítimas da repressão.
Entre 1976 e 1983, o regime militar implantou um sistema que a Justiça argentina classificaria posteriormente como um plano organizado de sequestros, torturas e assassinatos. Organizações de direitos humanos estimam que cerca de 30 mil pessoas desapareceram nesse período, um número que ainda hoje gera discussões.
Cinco décadas depois, relatos como o de Aurora ajudam a manter viva a memória de um período em que o medo e a violência transformaram profundamente a sociedade argentina.
Fonte: bbc.com







