Enquanto o Ministro do STF exalta a representação política fluminense, uma década de prisões, cassações e elos com o crime organizado desenha um cenário de colapso ético no estado.
Em recente declaração que ecoou nos corredores do Poder Judiciário, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, saiu em defesa da classe política de seu estado natal. Ao afirmar que o Rio de Janeiro possui “bons políticos” e é representado por “excelentes” quadros no Congresso Nacional, Fux parece ignorar o histórico recente que transformou o Palácio Guanabara e a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em antesalas do sistema penitenciário.
A realidade dos últimos dez anos, no entanto, é implacável e contradiz o otimismo do magistrado com dados, algemas e sentenças definitivas.
Se a excelência fosse medida por longevidade no poder sem problemas com a justiça, o Rio estaria em último lugar no ranking nacional. O histórico recente de governadores é um catálogo de fichas criminais:
- Sérgio Cabral: o símbolo máximo de uma era de excessos, com condenações que somam centenas de anos por lavagem de dinheiro e corrupção passiva.
- Luiz Fernando Pezão: preso no exercício do mandato, acusado de integrar o esquema de propinas de seu antecessor.
- Wilson Witzel: sofreu impeachment e foi afastado por irregularidades em contratos da saúde durante o auge da pandemia de Covid-19.
- Claudio Castro: renunciou ao cargo para fugir de cassação pelo TSE, deixando o estado “acéfalo” a menos de 6 meses das eleições para o mandado 2027/2030
Essa sucessão de quedas revela não casos isolados, mas um projeto de poder estruturado para o desvio de recursos públicos, o que torna a fala de Fux sobre “excelência” um paradoxo diante dos fatos.
A representação no Congresso e na Alerj, elogiada pelo Ministro, também carrega manchas indeléveis. A última década foi marcada por operações como a “Cadeia Velha” e a “Furna da Onça”, que desmantelaram esquemas de compra de votos e pagamentos de “mesadas” a deputados para que legislassem em favor de interesses escusos.
Nomes de peso, como os ex-presidentes da Alerj Jorge Picciani, Paulo Melo, Edson Albertassi e mais recentemente Rodrigo Bacellar,viram suas carreiras ruírem sob o peso de provas que ligavam o parlamento fluminense ao pagamento de propinas por empresas de transporte e empreiteiras.
Mais grave do que a corrupção administrativa é a simbiose entre a política e o crime organizado — seja através das milícias ou das facções do tráfico. Investigações recentes e cassações demonstram que:
- Domínio Territorial: políticos cariocas e fluminenses têm sido repetidamente acusados de negociar currais eleitorais com milicianos em troca de apoio logístico e financeiro.
- Mesadas Criminosas: o recebimento de valores mensais para garantir a omissão do Estado em áreas dominadas pelo crime tornou-se um modus operandi documentado em delações premiadas.
- Homicídios Políticos: o caso Marielle Franco expôs a face mais cruel dessa ligação, com o envolvimento direto de figuras políticas na arquitetura de crimes violentos para proteger interesses territoriais e econômicos.
O Ministro Luiz Fux concluiu seu raciocínio com uma frase de efeito: “Se esses políticos tiverem que ir para o inferno, eles vão acompanhados de altas autoridades”. A ironia da declaração reside no fato de que, para a população do Rio de Janeiro, o “inferno” já é uma realidade cotidiana, manifestada na falta de segurança, na saúde precária e na descrença total nas instituições.
Enquanto o magistrado vislumbra companhias para os políticos em uma eventual danação eterna, os últimos dez anos mostram que a justiça terrena ainda luta para desvendar até onde vai o buraco da corrupção fluminense. Contra a “excelência” retórica de Fux, restam os fatos: um estado onde a política, muitas vezes, não é um serviço ao cidadão, mas um balcão de negócios para o crime organizado.
Fonte: Estadão – Texto e imagem produzidos com auxílio de IA







