Com implementação iniciada em 100 escolas, programa paga diárias que somam R$ 6 mil mensais a PMs aposentados, valor que supera o piso dos docentes, sendo também o triplo do salário de agentes escolares
A implementação do modelo cívico-militar na rede estadual de ensino de São Paulo, que teve início nesta segunda-feira (2), trouxe à tona um debate sensível sobre a valorização profissional dentro das escolas. O governo paulista começou a alocar 208 policiais militares aposentados como monitores em 100 unidades de ensino, mas o que chama a atenção não é apenas a nova rotina de disciplina, mas a disparidade nos contracheques.
O custo adicional para manter esses militares será de R$ 17 milhões ao ano. Cada monitor receberá uma diária de R$ 301,70, o que totaliza cerca de R$ 6.000,00 mensais para aqueles que cumprirem a carga de 40 horas semanais.
O valor é emblemático por dois motivos principais:
- Superior ao Piso Docente: o complemento pago ao militar (que já possui sua aposentadoria) é 8% maior do que o piso salarial dos professores da rede estadual, fixado em R$ 5.565,00. Vale ressaltar que, enquanto o professor precisa de formação superior obrigatória para atuar em sala de aula, a maioria dos militares selecionados são praças, categoria que não exige ensino superior.
- Três vezes o salário do apoio: a diferença é ainda mais abismal quando comparada ao Agente de Organização Escolar (AOE). O funcionário que já atua na rotina administrativa e de pátio das escolas recebe, segundo o edital de 2025, apenas R$ 1.804,00. Ou seja, o monitor militar ganhará mais de três vezes o salário de quem já dedica a carreira ao suporte escolar.
Uma questão central que paira sobre o projeto é a origem dos recursos. Atualmente, o montante de R$ 17 milhões é visto como um investimento no modelo de gestão escolar, mas especialistas questionam se esse valor deveria sair do orçamento da Secretaria da Educação (Seduc) ou da Secretaria de Governo.
O argumento crítico é que, ao utilizar o orçamento da Educação, a pasta estaria priorizando o pagamento de uma gratificação a militares em detrimento da valorização de sua própria base de funcionários e professores. Se o objetivo é “apoio à rotina”, o uso da verba da Educação para pagar R$ 6 mil a um monitor, enquanto paga R$ 1,8 mil ao agente escolar, revela uma inversão de prioridades na política de remuneração da pasta.
Além do impacto financeiro, o modelo altera o cotidiano dos 53 mil alunos impactados. Os monitores atuarão em atividades de disciplina e civismo, exigindo padrões estéticos rígidos:
- Meninas: Cabelos obrigatoriamente presos.
- Meninos: Cortes curtos.
- Proibições: Piercings, bonés e roupas curtas estão vetados.
Enquanto o Secretário Executivo da Educação, Vinicius Neiva, afirma que a quantidade de monitores será definida conforme a “realidade de cada unidade”, a comunidade escolar observa com cautela.
O ponto de interrogação que fica não é sobre a busca por disciplina, mas por que a “disciplina” militar é financeiramente mais valorizada pelo Estado do que o ensino ministrado pelos professores ou o apoio prestado pelos agentes escolares.
Fonte: Folha de S.Paulo







