Empresários do varejo e do setor financeiro pressionam deputados federais e senadores para que esses não permita que o governo federal acabe ou diminua os impostos de importação – populamente chamada de “taxas das blusinhas”
A queda de braço em torno da chamada “taxação das blusinhas” ganhou contornos de guerra declarada neste mês de abril 2026.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou como um “absurdo” a pressão para taxar importados de até US$ 50, sinalizando uma medida para reverter o imposto de 20%. Do outro, uma coalizão de 67 associações empresariais, lideradas por gigantes como CNI, CNC e IDV, que correu ao Palácio do Planalto para tentar barrar o que chamam de retrocesso.
O argumento dos empresários é conhecido: a busca por proteger seus interesses em detrimento da população consumidora, especialmente os mais pobres. Ao analisar os dados e o tom da ofensiva patronal, fica claro que a preocupação dos empresários parece estar mais na manutenção de uma reserva de mercado que castiga, prioritariamente, a população de baixa renda.
Lula foi cirúrgico ao pontuar que as compras de R$ 20 a R$ 70 não representam uma ameaça sistêmica ao varejo organizado, mas são fundamentais para quem tem pouco poder aquisitivo. Ao defender a manutenção da taxa, o empresariado ignora que o consumo nessas plataformas não é um luxo, mas muitas vezes a única forma de acesso a bens de consumo básicos para famílias que lutam contra a inflação.
Curiosamente, o próprio documento enviado pelos empresários ao governo revela a fragilidade de suas teses. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva citada pelas entidades, apenas 12% dos consumidores migraram para lojas nacionais após a implementação do imposto. Ou seja: a taxação não “salvou” o varejo brasileiro; ela apenas encareceu o produto para o consumidor final ou o empurrou para a abstenção de compra.
A reação do setor beira o alarmismo. Representantes como Mauro Tavares, da Ablos, classificam a intenção do governo como “100% eleitoreira”. É uma acusação conveniente para desviar o foco do fato de que o varejo se recusa a discutir modernização e produtividade, preferindo o conforto da proteção estatal.
Ainda mais grave é a tentativa de vincular a desoneração das importações ao debate sobre o fim da escala 6×1. Os empresários utilizam o bem-estar do trabalhador como moeda de troca: sugerem que, se perderem a proteção contra os produtos chineses e forem obrigados a dar mais descanso aos seus funcionários, a classe média “acabará”. É uma retórica que coloca o lucro acima de qualquer avanço social ou ganho de qualidade de vida para quem de fato faz a roda da economia girar.
Fonte: Valor Econômico







