Documentos revelam que a Federação das Indústrias convocou empresários para bancar sala de tortura e armamentos em São Paulo sob o disfarce de “fundo educacional”
Novos documentos oficiais dos Estados Unidos, trazidos à luz pelo historiador Felipe Loureiro no livro “Olhares Ianques”, detalham uma face sombria da colaboração entre o setor privado e o regime militar. No centro do esquema estava a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que atuou como ponte direta entre o Exército e o capital financeiro para viabilizar a infraestrutura da repressão em solo paulista.
O ponto de inflexão ocorreu em novembro de 1971. Em uma reunião secreta convocada pela própria FIESP, o general Humberto Sousa Melo, então chefe do 2º Exército, leu uma carta do ditador Emílio Garrastazu Médici com um pedido explícito: ajuda financeira. O objetivo era brutalmente claro: construir uma sala de tortura em São Paulo, inspirada no Doi-Codi do Rio de Janeiro, e adquirir veículos e novos armamentos para o aparato repressivo.
O papel mediador da FIESP – a Federação não apenas organizou o encontro, como serviu de avalista moral e operacional para a arrecadação. Teobaldo de Nigris, então presidente da FIESP, é descrito nos documentos como a figura que deu credibilidade ao pedido oficial, sendo classificado por empresários americanos como um homem de “altíssima integridade”.
Para operacionalizar as doações sem deixar rastros óbvios de ilegalidade, a FIESP montou uma engenharia financeira criativa:
- A Fachada: Foi criado um “fundo educacional”.
- O Registro: As empresas faziam aportes de centenas a milhares de dólares.
- A Lavagem: A FIESP emitia recibos oficiais, permitindo que empresas multinacionais, especialmente as americanas, registrassem os gastos legalmente, evitando o caixa dois.
Participação Internacional – o peso da oligarquia paulistana uniu-se ao capital estrangeiro. Entre os presentes na reunião articulada pela Federação estavam vultos da indústria nacional e representantes de gigantes americanas, como:
- Thomas Romanach (Presidente da General Electric);
- Mack Verhyden (Caterpillar);
- Lou Rossi (DuPont);
- Trajano Pupo Neto (Anderson Clayton).
Apesar de o Consulado dos EUA em São Paulo ter tentado dissuadir o empresariado americano de participar por temer a exposição pública, a influência da liderança da FIESP prevaleceu.
Um Regime desorganizado – a pesquisa de Loureiro, baseada na abertura de arquivos do National Archives dos EUA, também desconstrói o mito da eficiência militar. Os relatórios indicam que a ditadura era “atabalhoada”, marcada por corrupção generalizada e disputas internas de poder.
Os órgãos de repressão, como os IPMs e a CGI, frequentemente se sobrepunham sem coordenação. Enquanto a FIESP garantia o fluxo de caixa para a montagem das salas de interrogatório, o governo americano observava, com uma mistura de cumplicidade e pragmatismo, a capilaridade de suas informações chegar a todos os cantos da elite brasileira.
O caso da FIESP em 1971 permanece como um dos exemplos mais contundentes de como a estrutura institucional da indústria paulista foi colocada a serviço direto da violência de Estado.
Fonte: Folha de São Paulo







