Divulgação de vídeo com ativistas rendidos e humilhados sob coerção psicológica expõe táticas de desumanização que remetem diretamente ao início do regime nazista na Alemanha entre 1933 e 1942.
A linha que separa a segurança nacional da barbárie psicológica tornou-se ainda mais tênue nesta quarta-feira (20). A publicação de um vídeo pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, o extremista de direita Itamar Ben-Gvir, não apenas detonou uma nova e severa crise diplomática para o já isolado governo de Binyamin Netanyahu, mas também acendeu um alerta histórico avassalador.
As imagens reveladas, que mostram ativistas com as mãos firmemente amarradas, testas forçadas contra o chão e submetidos à execução do hino nacional israelense em altíssimo volume, carregam um simbolismo de degradação humana que encontra paralelos diretos com os métodos de humilhação pública e quebra psicológica praticados pelo regime nazista entre 1933 e 1942.
A semelhança não reside na escala industrial do horror posterior, mas sim na mecânica precisa da desumanização e da propaganda estatal que marcou a ascensão do Terceiro Reich. No período que antecedeu a Solução Final, as forças de segurança alemãs e as milícias paramilitares utilizavam a exposição pública de opositores e minorias, o uso forçado de símbolos pátrios como ferramenta de tortura psicológica e o sadismo registrado em imagem para consolidar o poder e anestesiar a empatia da população.
Ao transformar o hino de um país em trilha sonora para o cativeiro e a submissão forçada, a atuação do ministério de Ben-Gvir mimetiza essa mesma lógica sombria: a de que o aparato do Estado existe para subjugar e aniquilar a dignidade do “outro”.
O episódio expôs as vísceras e as profundas divisões do próprio gabinete de Netanyahu. Setores do governo israelense, cientes do custo reputacional e da erosão moral que tais práticas acarretam, tentaram se distanciar da publicação, mas o estrago político e ético já estava consolidado.
A espetacularização do sofrimento e a transformação de prisioneiros em troféus digitais de um extremismo messiânico rebaixam as instituições de Israel ao nível dos regimes mais totalitários da história moderna.
Ao endossar abertamente a tortura psicológica e o tratamento degradante de detidos, Ben-Gvir não defende Israel; pelo contrário, ele desfigura os valores que a comunidade internacional tentou erguer justamente após as tragédias de meados do século XX.
O vídeo desta quarta-feira serve como um lembrete urgente e assustador de que, quando o nacionalismo se desvincula totalmente dos direitos humanos, os métodos do passado tendem a se repetir, independentemente de quem esteja no papel de opressor.
Fonte: Folha de S. Paulo







