Declaração de Itamar Ben Gvir sobre o Líbano desperta paralelos históricos com a doutrina de retaliação desproporcional contra populações civis
A escalada de tensão no Oriente Médio ganhou um contorno retórico alarmante nesta semana. O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, subiu o tom ao comentar as recentes baixas militares do país, defendendo abertamente uma política de devastação total e sofrimento compartilhado em larga escala contra a população vizinha.
“Todo o Líbano deveria queimar”, afirmou o ministro da ala ultra-ortodoxa e nacionalista do governo israelense. Em uma declaração que gerou forte repercussão internacional, Ben Gvir completou: “Para cada lágrima derramada por uma mãe israelense, mil mães libanesas devem chorar”.
Para além do impacto político imediato, a linguagem utilizada pelo ministro evoca, de forma direta, uma das lógicas mais cruéis da guerra moderna: a punição coletiva calculada por proporcionalidade matemática de terror. Historiadores e analistas apontam que esse tipo de discurso guarda uma semelhança estrutural incômoda com as diretrizes de ocupação militar adotadas pelo regime nazista entre 1933 e 1945.
A matemática do terror semelhante – durante a Segunda Guerra Mundial, o comando militar da Alemanha nazista institucionalizou a prática da “retaliação desproporcional” nas áreas invadidas e ocupadas. Sob as ordens de Berlim, a morte de um único soldado alemão por forças de resistência locais não era respondida com uma investigação ou ação cirúrgica, mas sim com o massacre deliberado de civis inocentes.
Em territórios ocupados na Europa Oriental e na Grécia, a proporção oficial estabelecida pelos comandantes nazistas chegava a 100 civis executados para cada soldado alemão morto. O objetivo era duplo: vingança imediata e a imposição do medo generalizado para paralisar qualquer tentativa de oposição. A responsabilidade pelo ato de combate era transferida inteiramente para a população civil, que pagava com a vida pelo simples fato de residir na região.
Ao estipular que “mil mães devem chorar” para cada lágrima de uma mãe israelense, a fala de Ben Gvir ressuscita exatamente a mesma premissa matemática de punição coletiva em que o sofrimento civil não é um efeito colateral, mas o objetivo central da ação estatal.
Embora o governo de Israel frequentemente argumente que suas operações miram alvos terroristas e estruturas do Hezbollah, a declaração de um membro do alto escalão do gabinete de segurança sugerindo a destruição total de uma nação (“todo o Líbano deveria queimar”) corrói a distinção legal e moral entre combatentes e civis.
Especialistas em direito internacional alertam que a retórica da retaliação em massa e da vingança desproporcional viola os princípios fundamentais das Convenções de Genebra, criadas justamente no pós-Segunda Guerra para impedir que os horrores da punição coletiva praticados no passado voltassem a se repetir.
Fonte: Estadão e Portal Metrópoles







