Diretor da CBF Academy, Tiago Pereira projeta reformulação estrutural para profissionalizar as categorias de base e valorizar o desenvolvimento dos atletas
A recente eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo, consolidada pela derrota por 2 a 1 diante da Noruega em um domingo, 5 de julho, expôs números preocupantes sobre o atual estágio do nosso futebol.
O Brasil encerrou o confronto com apenas 34% de posse de bola, enquanto os noruegueses ditaram o ritmo do jogo com 60% de domínio, um controle de jogo superior ao que apresentaram inclusive contra o Iraque, lanterna da competição.
Os registros históricos apontam que a seleção jamais passou tanto tempo sem o controle da bola em Copas do Mundo desde o início desse tipo de monitoramento estatístico, em 1966. Pelo retrospecto vitorioso dos mundiais anteriores, que incluem os títulos de 1958 e 1962, o vice-campeonato de 1950 e o terceiro lugar em 1938, torna-se seguro afirmar que o país nunca havia abdicado tanto do protagonismo em campo.
O desempenho incomodou profissionais experientes. Ainda no intervalo do jogo, o ex-treinador Vanderlei Luxemburgo demonstrou sua insatisfação nas redes sociais, afirmando que o Brasil poderia até vencer, mas ressaltou que sentir temor diante da Noruega indicava que havia algo muito errado.
Diante do distanciamento da tradicional característica ofensiva do país, o debate sobre os rumos do esporte ganha força nos bastidores. O economista e professor Tiago Pereira, atual diretor da CBF Academy, lidera um grupo de trabalho focado em reestruturar as categorias de base.
Em entrevista, ele alertou sobre o perigo da acomodação e citou o exemplo da Itália, que, apesar de ser tetracampeã mundial, ficou de fora das últimas três edições da Copa do Mundo após não perceber a necessidade de evolução.
O comitê coordenado por Pereira foi oficializado no início de abril por meio de portaria da CBF, realizando encontros em 27 de abril e 28 de maio. A iniciativa integra cerca de 120 profissionais entre federações, agremiações e especialistas.
A meta principal é estabelecer um diagnóstico preciso para propor melhorias na formação esportiva, educacional e humana de jovens atletas, tanto no cenário masculino quanto no feminino.
De acordo com o diretor, o ponto de partida envolveu a análise da burocracia na concessão do certificado de clube formador, a baixa minutagem que os atletas jovens recebem nos torneios nacionais antes de seguirem precocemente para o exterior e o equilíbrio entre o calendário de jogos e o desempenho acadêmico dos estudantes.
O grupo tem até o fim de julho para apresentar um conjunto de propostas divididas em cinco eixos, que englobam agentes, calendários, governança dos clubes, diretrizes de formação e o futebol feminino.
Uma das principais inovações sugeridas por Tiago Pereira é a criação de diferentes níveis para os clubes formadores, inspirando-se em modelos aplicados em Portugal, na Alemanha e na Inglaterra. Atualmente, o sistema brasileiro reconhece apenas 81 clubes certificados em um formato binário, onde o clube é considerado formador ou não.
A nova proposta visa criar incentivos para que as agremiações evoluam de patamar ao cumprirem requisitos rígidos, como o acompanhamento familiar, pedagógico e de saúde dos jovens.
Pereira ressalta que, no momento atual, os clubes brasileiros trabalham de forma isolada na base, sem uma filosofia unificada. O projeto de novas diretrizes nacionais caminhará em paralelo com o Talent Development Scheme, iniciativa da Fifa.
Outro ponto central do comitê é o combate à informalidade no mercado de empresários. Com aproximadamente 2.400 intermediários em atividade no Brasil e menos de 400 credenciados pela Fifa, o grupo busca implantar uma nova regulamentação para coibir abusos financeiros e contratos informais que prejudicam famílias em vulnerabilidade.
A intenção é estabelecer um código de ética rigoroso e garantir que todas as transações financeiras ocorram estritamente por vias bancárias.
Como referência internacional de sucesso de longo prazo, Pereira apontou a reestruturação feita pela Alemanha após crises nos anos 1990, culminando no título mundial de 2014.
O diretor defende que o foco principal deve ser sempre o desenvolvimento individualizado do atleta, respeitando o tempo de maturação biológica e psicológica de cada jovem, que varia desde o estímulo à criatividade até os 15 anos até o preparo mental avançado após os 17 anos.
Fonte: Valor Econômico







