Medo de processos judiciais e suspeitas de suborno transformaram uma negativa técnica em um dos maiores prejuízos da história do Fundo Garantidor de Créditos.
O processo de aquisição do antigo Banco Máxima (hoje Banco Master) pelo empresário Daniel Vorcaro revela um rastro de decisões controversas no Banco Central (BC) que culminaram em um prejuízo bilionário. Documentos e relatos de bastidores mostram que a instituição, sob diferentes gestões, oscilou entre o rigor técnico e a passividade burocrática, permitindo que um controlador de “reputação questionável” assumisse o comando de uma instituição financeira que já operava no vermelho.
A trajetória da venda do banco é dividida por um divisor de águas: a troca de comando no Banco Central em 2019.
- A Gestão Ilan Goldfajn: até fevereiro de 2019, o BC mantinha uma postura de resistência. Duas semanas antes de deixar o cargo, a diretoria de Goldfajn vetou formalmente a compra por Vorcaro. O motivo oficial não foi a “má fama” do empresário, mas a falta de comprovação da origem do capital e a incapacidade financeira dos adquirentes em suportar o banco. Na época, o rombo era estimado em R$ 1,8 bilhão.
- A Gestão Roberto Campos Neto: com a nova presidência, o cenário mudou drasticamente. Em apenas oito meses, o veto foi revertido. Em outubro de 2019, a operação foi aprovada sob o argumento de que o novo pleito atendia a requisitos formais, como a comprovação de recursos em grandes bancos.
Um dos pontos mais críticos foi o critério de “reputação ilibada”. Embora diretores chamassem Vorcaro internamente de “picareta”, a Procuradoria-Geral do BC (PGBC) defendeu que, sem uma denúncia aceita pela Justiça, não havia base legal para o veto. O medo de que os funcionários do BC fossem processados pelos banqueiros paralisou decisões mais drásticas.
Mesmo quando Vorcaro teve sua prisão preventiva decretada, apenas duas semanas após a aprovação da compra, o Banco Central se recusou a reverter a decisão, mantendo o entendimento técnico de que a prisão, por si só, não anulava a reputação do empresário.
O caso ganha contornos criminais com investigações sobre a atuação de Paulo Souza, então diretor de fiscalização do BC. Souza foi peça-chave para destravar a aprovação na gestão Campos Neto, argumentando que a supervisão contínua controlaria eventuais desvios de Vorcaro.
Posteriormente, descobriu-se uma transação imobiliária suspeita: a venda de uma fazenda de Souza para parentes de Vorcaro, em uma operação que investigadores suspeitam ter sido um suborno simulado para facilitar a entrada do empresário no sistema financeiro.
O desfecho da leniência institucional é medido em cifras astronômicas. O que poderia ter sido resolvido com uma intervenção precoce em 2016 ou 2019 escalou para um prejuízo consolidado de R$ 60 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Hoje, fontes do próprio Banco Central admitem: a tentativa de salvar a instituição através de um comprador duvidoso custou muito mais caro do que a sua liquidação imediata.
Fonte: Valor Econômico







