Dinâmica de “vaivém” em turnos faz com que um mesmo endereço varie de zero a dezenas de usuários em poucas horas; Praça Marechal Deodoro lidera concentração.
Um ano após o esvaziamento da última grande aglomeração da Cracolândia na Rua dos Protestantes, o cenário do tráfico e consumo de drogas no centro de São Paulo mudou de perfil. Em vez de uma massa compacta de mil pessoas, o que se vê hoje é uma fragmentação: pequenos grupos e usuários solitários circulam constantemente por cerca de 260 pontos do distrito de Santa Cecília e arredores.
Dados oficiais do governo estadual referentes ao período de 20 a 23 de abril de 2026, revelam que a região registra uma média de 214 dependentes químicos por turno (madrugada, manhã, tarde e noite). A dinâmica atual é marcada por um “revezamento” provocado pela pressão policial, fazendo com que a presença de usuários em um único endereço oscile drasticamente em intervalos de poucas horas.
Embora as grandes turbas tenham se tornado exceção, alguns locais ainda apresentam concentrações significativas. A Praça Marechal Deodoro consolidou-se como o principal ponto de referência na região.
- Praça Marechal Deodoro: no número 43, a média é de 22 usuários por turno, tendo atingido um pico de 35 pessoas na tarde de 21 de abril. Curiosamente, dois dias depois, o local estava vazio.
- Avenida Rio Branco: o número 940 registra média de 12,5 pessoas. Ao longo de toda a via, monitorada em 26 pontos diferentes, a média sobe para 24.
- Outros pontos críticos: Praça Princesa Isabel (10 usuários), Rua Apa (9) e Avenida Duque de Caxias (7).
O vice-governador e coordenador das ações na região, Felício Ramuth (MDB), defende que esse deslocamento contínuo é fruto de uma estratégia deliberada de monitoramento. O governo utiliza drones e câmeras para realizar a contagem diária e identificar microfluxos de distribuição.
Enquanto a Polícia Militar e a Guarda Civil Municipal realizam revistas e prisões em flagrante, assistentes sociais tentam encaminhar dependentes para o Hub de Cuidados em Crack e outras Drogas, no Bom Retiro, que serve como porta de entrada para hospitais e comunidades terapêuticas.
A nova configuração gera percepções ambivalentes na vizinhança. Moradores de áreas que antes eram tomadas pelo fluxo massivo celebram a recuperação do espaço público. Por outro lado, residentes de ruas tradicionalmente residenciais da Santa Cecília agora convivem com a “presença momentânea” e a rotatividade de usuários em suas portas.
Críticos da atual política de segurança e assistência apontam que a Cracolândia foi “atomizada” sendo dividida em partes minúsculas que dificultam o atendimento social e espalham a sensação de insegurança por uma área maior da capital. O governo do estado admite que o consumo de crack nas ruas persiste.
Fonte: Folha de S.Paulo







