Guilherme Caputo criticou as expressões “juízes vermelho e azuis”, usada pelo ministro Ives Gandra Filho durante o curso, como falta ética e uma simplificação ideológica por parte do magistrado que defende menos direitos trabalhistas
fronteira entre o compartilhamento acadêmico e o favorecimento estratégico tornou-se o centro de um embate institucional no Tribunal Superior do Trabalho (TST). O epicentro da crise envolve o “Curso Aplicado para Atuação no Tribunal Superior do Trabalho”, um evento organizado pelo Instituto de Estudos Jurídicos Aplicados (IEJA) e coordenado pelo ministro Guilherme Caputo Bastos, com o objetivo explícito de ensinar advogados a litigar na corte superior.
O conflito ganhou contornos públicos após declarações do ministro Ives Gandra Filho durante sua aula no referido curso. Ao tentar mapear o perfil da Corte para os alunos, Gandra utilizou uma metáfora cromática que gerou desconforto imediato: classificou os magistrados entre “vermelhos” (identificados como intervencionistas) e “azuis” (vistos como liberais).
A fala foi interpretada não apenas como uma simplificação ideológica, mas como um “mapa da mina” oferecido a uma das partes do processo para manobrar teses jurídicas de acordo com o julgador sorteado.
O atual presidente do TST, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, não poupou críticas à postura do colega e à natureza do evento. Para a presidência, a participação de membros da alta cúpula do Judiciário em cursos que prometem “atalhos” ou “estratégias de atuação” dentro do próprio tribunal fere a liturgia do cargo e coloca em xeque a imparcialidade da instituição.
“A justiça não pode ser segmentada por cores ou ideologias em um ambiente de ensino para quem litiga perante nós”, sinalizou o debate interno da Corte.
O episódio reacende o debate sobre o Código de Ética da Magistratura. Especialistas questionam até que ponto um ministro pode atuar na formação de advogados que, no dia seguinte, estarão apresentando sustentação oral em sua bancada de julgamento.
- De um lado: defensores da iniciativa argumentam que o curso promove o aperfeiçoamento técnico e a celeridade processual, ao ensinar as nuances regimentais da Corte.
- De outro: críticos apontam que a proximidade excessiva e a revelação de “perfis ideológicos” criam uma desigualdade de armas, onde apenas os advogados que podem custear tais cursos teriam acesso à “mentalidade” real dos julgadores.
Até o momento, o TST mantém o funcionamento regular de suas turmas, mas o mal-estar gerado pelas declarações de Gandra e pela coordenação de Caputo Bastos no evento privado marca um dos momentos de maior tensão ética na história recente do tribunal.
Fonte: Estadão







