Segunda fase da Operação Carbono Oculto revela como fintechs e fundos de investimento na região mais nobre de São Paulo viraram engrenagem para lavar R$ 26 bilhões do PCC
A Avenida Brigadeiro Faria Lima, conhecida como o símbolo da sofisticação, do PIB e do sucesso corporativo brasileiro, assiste à sua imagem de espelho do progresso ser manchada por uma realidade sombria. O coração financeiro do país assemelha-se, cada vez mais, a uma verdadeira “Faria Lama”, sufocada por empresas de fachada, fintechs de fachada e fundos de investimento estruturados para servir ao crime organizado e à lavagem de dinheiro.
Nesta quinta-feira (28), a Polícia Federal, o Ministério Público e a Receita Federal deflagraram a segunda fase da Operação Carbono Oculto em uma engrenagem bilionária operada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que, ironicamente, encontrou nos modernos escritórios da elite paulistana o porto seguro para lesar a sociedade brasileira.
R$ 26 bilhões roubados da sociedade – de acordo com os investigadores, o esquema combina a alta rentabilidade do mercado de combustíveis com a lavagem de dinheiro em larga escala. A máquina criminosa funcionava por meio de sonegação fiscal massiva e adulteração de combustíveis — crimes que atacam diretamente o bolso do cidadão e destroem a livre concorrência.
Desde 2022, estima-se que as fraudes na cadeia produtiva do setor tenham rendido ao grupo um lucro ilícito de, no mínimo, R$ 26 bilhões.
Após o pontapé inicial da operação em agosto de 2025, o avanço das investigações jogou luz sobre o “núcleo de inteligência financeira” da facção. Seis fintechs (empresas de tecnologia financeira) foram identificadas como peças-chave para:
- Realizar compensações financeiras falsas entre distribuidoras e postos;
- Movimentar recursos entre empresas e fundos de investimento controlados pelo PCC;
- Pagar colaboradores da facção e custear as despesas pessoais luxuosas dos principais operadores do esquema.
A teia nacional da “Faria Lama” – o rastro da lama financeira deixado pelo crime não se limita à capital paulista, embora encontre nela o seu centro de comando. Ao todo, a operação cumpre 59 mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e jurídicas espalhadas por cinco estados brasileiros:
| Estado | Cidades Alvo |
| São Paulo | Capital, Arujá, Atibaia, Barueri (Alphaville), Santos e São José do Rio Preto |
| Paraná | Cascavel e Paranavaí |
| Mato Grosso do Sul | Iguatemi |
| Minas Gerais | Belo Horizonte |
| Rio de Janeiro | Rio de Janeiro (Capital) |
Endereços de luxo, práticas criminosas – os mandados de busca revelam que o crime organizado aprendeu a falar o jargão do mercado e a ocupar os metros quadrados mais caros do país. Entre os principais alvos da Operação Carbono Oculto estão:
- Ello Gestora de Recursos Ltda: com endereços na badalada Vila Nova Conceição e na própria Avenida Brigadeiro Faria Lima. segundo a Promotoria, seus fundos eram utilizados para ocultar patrimônio e dissimular os reais beneficiários do PCC.
- Grupo Sispay: instalado em conjuntos comerciais na Rua Joaquim Floriano, no Itaim Bibi (região da Faria Lima).
- Grupo Ceopag: com sedes em São José do Rio Preto e Barueri.
- Grupo Yaw: com bases em Alphaville e no centro de Belo Horizonte.
- Grupo Smart Solutions: localizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
O desdobramento da Operação Carbono Oculto deixa um alerta incômodo para as autoridades e para o mercado financeiro: por trás dos ternos sob medida e dos vidros espelhados da Faria Lima, o dinheiro que financia o crime contra a sociedade brasileira corre solto, mostrando que a sofisticação do mercado, muitas vezes, serve de disfarce para a lama do colarinho branco.
Fonte: Estadão







