Sob a gestão Trump, Washington intensifica sanções contra o PCC e o CV por alegado terrorismo, mas ignora o transbordamento da sua florescente e sofisticada indústria de Cannabis, que nutre o mercado ilegal de alto valor no país.
O discurso da “guerra ao terrorismo” e ao crime organizado ganhou novos contornos na política externa da administração Donald Trump. Enquanto a Casa Branca eleva o tom contra grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), rotulando-os como organizações terroristas e aplicando sanções financeiras, uma contradição evidente opera nos bastidores da segurança internacional.
Ao mesmo tempo em que Washington aponta o dedo para o dinheiro ilícito latino-americano em solo americano, a florescente e legalizada indústria da Cannabis nos Estados Unidos alimenta de forma vertiginosa o mercado ilegal brasileiro com produtos de altíssimo valor agregado.
Os dados mais recentes da Polícia Federal (PF) expõem a assimetria dessa relação. Nos primeiros sete meses de 2026, as apreensões de maconha vinda dos EUA atingiram 897,66 kg, superando em 35% todo o volume recolhido em 2025 (664,74 kg) e eclipsando a marca de 2024 (236,39 kg). Quando somado ao fluxo vindo do Canadá, o total apreendido atinge a expressiva marca de 1,032 tonelada entre janeiro e julho deste ano.
O negócio lucrativo do THC concentrado – o interesse das facções criminosas no produto norte-americano reside no ganho financeiro por volume. Ao contrário da tradicional erva prensada vinda do Paraguai — cujo teor de tetrahidrocanabinol (THC), o princípio ativo psicoativo, varia entre parcos 2% e 8% —, a chamada “maconha gourmet” das flores cultivadas na América do Norte alcança até 30% de THC. Em extratos e concentrados, esse índice ultrapassa os 50%.
Esse salto de qualidade transformou a logística do narcotráfico:
- Preços de cocaína: o produto chega a valer por quilograma o mesmo valor da cocaína refinada, por vezes superando essa marca no mercado premium.
- Menor risco operacional: em vez de movimentar grandes caminhões com toneladas de prensado, o crime organizado lucra proporcionalmente mais enviando remessas menores e discretas.
- Logística facilitada: a droga desembarca em grandes hubs aeroportuários, como Guarulhos, Viracopos, Galeão e Confins, oculta em encomendas postais e embalagens de suplementos, ou trazida por passageiros (“mulas”).
“É a ironia da regulação seletiva: a indústria legal da Cannabis no Hemisfério Norte investiu bilhões em engenharia genética e tecnologia de cultivo. Esse avanço tecnológico foi rapidamente absorvido e financiado pelo crime organizado, operando uma rota inversa da droga para o Sul global.”
Entreposto Paraguai – o mapa do tráfico mostra que a mercadoria norte-americana não usa apenas vias diretas. O Paraguai, histórico fornecedor do prensado de baixo custo, converteu-se também em entreposto para cargas sofisticadas vinda do Norte. Recentemente, autoridades paraguaias apreenderam 311 kg de maconha oriunda dos EUA que seriam reexportados para o Brasil.
O movimento não é isolado. O salto genético impulsionado por regulações flexíveis também afeta países como Uruguai, Colômbia e até a Tailândia. Internamente, o Brasil já sente o contágio tecnológico: o cultivo nacional, que extrapola o tradicional Polígono da Maconha em Pernambuco e atinge áreas que vão do Pará ao norte de Minas Gerais, registrou amostras com 11% a 15% de THC, fruto do contrabando de sementes e técnicas estrangeiras.
A retórica de Washington foca na sufocação financeira de redes criminosas latinas, mas ignora como as externalidades de seu próprio mercado consumidor e produtor desestabilizam a segurança nos países vizinhos.
fonte: Folha de S. Paulo







