Articulação liderada pelo PSD para rifar candidatura do Partido Novo em favor de Ronaldo Caiado expõe o oportunismo de um fisiologismo que atropela prazos e ritos eleitorais
A política tradicional costuma ter timing, ritos e regras claras, mas o Centrão opera sob uma lógica própria: a da conveniência de última hora. Integrantes da campanha do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado e dirigentes do PSD procuraram o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Partido Novo), apresentando uma proposta direta de abandono de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto para que ele declare apoio formal a Caiado na corrida presidencial.
Em troca da renúncia ao projeto próprio, o PSD e ronaldo Caiado ofereceu a Zema a promessa de um “entendimento mais amplo” para contemplar as exigências de seu grupo político. De acordo com interlocutores, o político mineiro estaria inclinado a avaliar a oferta, desde que o pacote final compense o recuo estratégico. Oficialmente, contudo, a chefia de campanha de Zema sustenta que a pré-candidatura do Partido Novo permanece inabalada e que ele segue no páreo como opção ao eleitorado.
O atropelo do rito democrático – mais do que uma simples negociação de bastidor, a ofensiva escancara a essência crítica do modo de operação do Centrão: o arranjo extemporâneo. Uma movimentação dessa envergadura, que tenta desenhar um alinhamento de grande porte na terceira via, chega em momento flagrantemente intempestivo.
Acordos programáticos e coligações estruturantes deveriam ter sido consolidados no período reservado às articulações partidárias, antes do encaminhamento formal dos registros de candidatura na Justiça Eleitoral. Tentar rifar um candidato, já oficializado e com campanha pedindo votos a todo vapor, reforça a percepção de que, para a velha política, planos de governo e ideologia são meros detalhes contornáveis no varejo eleitoral.
A disposição de Zema em sequer examinar a proposta põe à prova a retórica de “outsider” e a postura anti-estabelecimento que consagraram a ascensão do Partido Novo. Se ceder às investidas do PSD em troca de compensações de bastidor, o ex-governador mineiro arrisca desidratar a própria narrativa de independência e austeridade para se fundir à pragmática engrenagem de barganha do Centrão.
O episódio deixa transparecer o desespero das forças tradicionais do “Centrão” em unificar nacos da direita em um único palanque contra os favoritos da disputa.
Contudo, ao deixar a diplomacia de balcão para depois dos 45 do segundo tempo, o Centrão evidencia que sua maior prioridade não é apresentar um projeto sólido ao país, mas sim garantir o loteamento prévio de influência política, custe o que custar à liturgia do processo eleitoral.
Fonte: Band Jornalismo







