Com déficit de mão de obra, setor se reinventa com industrialização, qualificação e mudanças na nomenclatura das funções
A construção civil brasileira vive um momento paradoxal. De um lado, o setor acelera a industrialização dos canteiros e mantém ritmo intenso de atividades. De outro, enfrenta um gargalo histórico: a escassez de trabalhadores qualificados.
Com a idade média dos operários em 42 anos e o desinteresse crescente das gerações Z e Alfa pelas funções tradicionais, o mercado precisa urgentemente se reinventar para atrair novos talentos e, ao mesmo tempo, valorizar quem já atua na área.
No estado de São Paulo, o déficit de profissionais ultrapassa 100 mil vagas, segundo o Sinduscon-SP. Serventes, pedreiros e carpinteiros estão entre os cargos mais difíceis de preencher. Parte dos jovens, nativos digitais, prefere atividades autônomas, como o trabalho em aplicativos de transporte, que oferecem flexibilidade e independência. Diante desse cenário, o setor decidiu agir com uma estratégia inédita.
Lançado em setembro, o projeto “Trilhas de Carreiras Profissionais”, fruto de parceria entre Sinduscon-SP, Senai e Sintracon-SP , propõe três frentes de atuação: qualificação dentro das obras, plano de ascensão profissional e, a mais simbólica, a reformulação dos títulos das ocupações.
A ideia é ressignificar o trabalho manual, dando-lhe status e reconhecimento. O antigo servente de pedreiro passa a ser chamado de auxiliar de produção; o pedreiro vira construtor civil; o carpinteiro torna-se instalador de formas; o gesseiro, instalador de sistema a seco; o encanador, instalador hidráulico; o eletricista, instalador eletricista; e o ferreiro armador, instalador armador.
Ao todo, são sete degraus de evolução profissional, que vão do auxiliar de produção ao mestre de obras sênior. A diferença salarial entre o primeiro e o último nível é expressiva: enquanto um servente ganha, em média, R$ 2,4mil, um mestre de obras pode receber entre R$ 20 mil e R$ 22 mil.
Qualificação e industrialização como caminhos para o futuro – o projeto também prevê cursos de formação profissional dentro das próprias obras, oferecidos pelo Senai, com foco em métodos construtivos industrializados. O setor estima que atualmente cerca de 40% das construções já utilizam processos industrializados — como fachadas pré-fabricadas — e a meta é chegar a 100% em dez anos.
Essa modernização, aliada à capacitação, visa mostrar aos jovens que a construção civil não é mais sinônimo apenas de esforço braçal, mas também de tecnologia, precisão e inovação. “Não dá para atrair a Geração Z sem mostrar que o setor está mudando”, reforça David Fratell, diretor-adjunto de Gente do Sinduscon-SP
Desafios e cautelas – apesar do entusiasmo, o projeto encontra resistências. Antônio Freitas, presidente em exercício do Sintracon-SP, pondera: “Só mudar o nome de pedreiro para construtor civil não vai incentivar os trabalhadores. A principal coisa é melhorar o salário também.”
O projeto piloto envolve 10 construtoras e 20 empreiteiras em São Paulo. A meta é que ele seja replicado em todo o país pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), consolidando uma nova cultura de valorização profissional no setor.
Mais do que preencher vagas, a iniciativa busca devolver dignidade, reconhecimento e perspectiva de futuro aos trabalhadores que constroem, literalmente, o país. E, quem sabe, despertar o interesse de uma geração que quer mais do que um emprego — quer uma carreira.
Fonte: Valor Econômico







