Presidente da FecomercioSP: hipócrita que critica o bolsa família, mas não abre mão do imposto sindical e das taxas compulsórias do Sistema S

Ivo Dall’Acqua Júnior ao desqualificar o voto de beneficiários de programas sociais, esconde que sua própria estrutura sobrevive blindada pelo dinheiro que sai obrigatoriamente do bolso dos trabalhadores e das empresas.

O debate sobre as relações trabalhistas no Brasil costuma retirar as máscaras mais bem ajustadas do topo da pirâmide corporativa. A mais nova performance de elitismo e descolamento da realidade nacional vem da liderança da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Sob o comando de Ivo Dall’Acqua Júnior, que assumiu recentemente o topo da representação patronal paulista, a oposição ferrenha ao fim da escala de trabalho 6×1 veio acompanhada de um ataque direto e preconceituoso à soberania do voto popular: o questionamento sobre a legitimidade política de quem depende do Bolsa Família.

O cinismo da declaração, contudo, não reside apenas na falta de empatia com a exaustão física e mental de milhões de brasileiros que vivem sob o regime de apenas uma folga semanal. Mora, fundamentalmente, na profunda hipocrisia de um dirigente que construiu sua carreira e mantém seu feudo institucional gerindo verdadeiras fortunas de natureza compulsória e essencialmente com dinheiro de origem primário público.

Ao sugerir que beneficiários de programas de transferência de renda têm sua capacidade de escolha comprometida, Dall’Acqua Júnior tenta criar uma hierarquia cidadã baseada na vulnerabilidade econômica.

Para a lógica patronal expressa pelo dirigente, o cidadão que recebe um auxílio do Estado para não passar fome está sob suspeita permanente. No entanto, o presidente da FecomercioSP parece sofrer de uma conveniente amnésia institucional quando o assunto é a origem dos recursos que sustentam a engrenagem que ele mesmo lidera.

A FecomercioSP e os sindicatos patronais a ela filiados continuam a se beneficiar de estruturas financeiras alimentadas por impostos e contribuições.

Mais do que isso: na condição de presidente do Sistema S no estado, controlando as bilionárias máquinas do Sesc e do Senac, o executivo administra orçamentos colossais gerados por meio de alíquotas incidentes diretamente sobre a folha de pagamento das empresas.

Esses repasses, embora geridos por entidades privadas, são arrecadados pela Receita Federal de forma obrigatória. Trata-se de uma exação tributária que encarece o custo do trabalho no país e drena recursos da sociedade para os cofres dessas corporações intocáveis.

Para o trabalhador comum, o recado da liderança empresarial é claro: o sacrifício na escala 6×1 é uma necessidade econômica intransigível, e qualquer tentativa de humanizar a jornada de trabalho é tratada como heresia.

Enquanto isso, o Sistema S opera em um universo paralelo de fartura e estabilidade financeira, imune às intempéries que assolam o comércio de rua e os trabalhadores do balcão.

A contradição salta aos olhos: o dirigente questiona a autonomia do cidadão que depende de R$ 600 do governo para sobreviver, mas não vê nenhum problema ético em comandar uma estrutura que movimenta bilhões de reais sem precisar disputar um único cliente no mercado, dependendo exclusivamente do caráter impositivo da lei.

Classificar o Bolsa Família como uma “moeda de troca” ao mesmo tempo em que se senta sobre um império financiado por tributação compulsória é uma demonstração de cinismo que beira o deboche.

Enquanto o trabalhador que cumpre a escala 6×1 gasta sua saúde para garantir o lucro do setor e a arrecadação que financia o próprio Sesc e Senac, ele ouve de seus representantes indiretos que não deveria ter o mesmo peso político na hora de votar.

Se as taxas compulsórias e o imposto sindical patronal fossem submetidos ao mesmo escrutínio moral que o presidente da FecomercioSP aplica aos programas sociais, a narrativa desmoronaria. Se o Bolsa Família é assistência, o que seria a manutenção de federações e confederações bilionárias por meio de decretos e recolhimentos forçados se não o mais puro assistencialismo corporativo estatal?

A crítica ao fim da escala 6×1 perde qualquer contorno de tecnicidade econômica quando se revela como mero preconceito de classe. Ao tentar deslegitimar o voto dos mais vulneráveis, a elite comercial paulista não defende a economia; defende a perpetuação de um modelo onde o sacrifício é compulsório para quem está na base, e o dinheiro público é vitalício para quem está no topo.

Fonte: Folha de S. Paulo

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