O tempo seco e inoperante, ainda consegue desdobrar para apresentar a sua sensibilidade e apontar para o belo. Que pena que o Ipê florido está sendo visto do outro lado do muro! Há uma guerra mental na sociedade e a liberdade esfarelou-se a ponto de colocar a contemplação da arte, da natureza, dentro de um regime fechado, como prevenção contra ameaças e absurdos, tão comum na sociedade pós moderna.
O que houve com o tempo? Errou tanto assim? Parece que conseguiu fragmentar a construção de um mundo livre, sem os receios e as ameaças que tanto nos julgam fracos, impossibilitados de contemplar uma justiça plena, sem salvo conduto ao bandido, ao assassino, a monstruosidade.
Talvez temos a mesma proporção para desafiar a delinquência, mas o superego desafia nossa imoralidade e nos policia para não cair no submundo das trevas e apavorar a honra, como faz os marginais. É tempo de silenciar nas mais profundas fortalezas de papelão, como cães acuados e maltrapilhos, sofrendo os maus tratos da injúria, como se a liberdade fosse um requinte de crueldade, levando a viver sob a tentação de construir uma fortaleza para coibir o crime.
Que fortaleza? A de concreto, de aço, cimento, de barro e pó, que nos livra momentaneamente de avistar o mundo do outro lado do muro? Ah, se eu tivesse liberdade! Eu ia à São Paulo! Lá andaria no Barra- Funda, no Bexiga, depois embarcaria de metrô até a estação Liberdade e desceria só para caminhar pelo Paraíso, até chegar à Avenida Paulista! Sem medo de ser assaltado, de ter a vida aproximando da morte. Ah. se eu tivesse liberdade! Iria para o Rio de Janeiro! Lá tomaria banho de mar, contemplaria o Pão de Açúcar, O Cristo Redentor. Ah, se eu tivesse liberdade! Sairia de trás desse muro, correria até o Ipê, florido, amarelo, colheria algumas flores e traria para a morena por quem meu coração apaixonou no primeiro encontro. Aquele amor de romancista cresceu e se tornou um romance e, a beira de ver o nascimento de minha segunda filha, não teria que me adaptar ao sistema bruto e cruel de viver refém desse muro que me cerca e “me livra do mal”.
Quem sabe um dia tornarei um magnata! Tirar ouro do nariz. Estudar Direito e me esforçar para criar leis que me dê liberdade de expressão e como se fosse o único, sair gritando: – Liberdade! Liberdade! Liberdade! Venha a nós o vosso reino e seja feito a vossa vontade, assim como em São Paulo, Rio de Janeiro. Assim como em Porto Ferreira, assim como no Brasil. Mas não estudei direito, caí nas garras dos sonhos e essa bendita equidade que morava em meu peito, naquele mundo universitário de criar um mundo justo, escondeu-se atrás dos muros, para não se tornar mais uma vítima da circunstância.
Tudo que consigo contemplar agora, é esse Ipê florido e sem tanta resistência. Frágil como o Bem-Te-vi, que ainda consegue voar livremente pelas Américas, até que um delinquente implique com sua liberdade e achar que não deva voar mais. Pronto! Mais um crime para deixar a terra de luto. E de luto em luto, ela saúda o muro. Aquele que preserva a vida até que a morte os separe e permita que possa ao menos contemplar um Ipê, do que ter que esconder os olhos atrás do muro e contemplar somente o concreto, o aço, o cimento, o barro, o pó. (Por Alex Magalhães)







