A história remete aos primeiros anos da segunda metade do século XIX, época em que considerável número de latifundiários principiou movimento de divisão de bens. Em consequência, originaram-se situações agrícolas e agremiações, as quais se transformaram em viletas, favorecendo o surgimento de pequenos distritos, mais tarde, municípios. Concomitantemente, os coronéis-fazendeiros investiram no próspero plantio de cafeeiros, tão em voga, e conquistaram distinções honoríficas, destacando-se na sociedade e na economia brasileira diante das fortunas que acumularam.
Em princípios da década 1870, o capitão Joaquim Procópio de Araújo comprou uma gleba, cerca de 1580 alqueires, do Barão de Souza Queiroz, Francisco Antonio de Souza Queiroz, com parte situada na jovem cidade de Pirassununga. A partir da aquisição, o empreendedor mineiro e sua família fixaram residência neste município a fim de continuar com os negócios agricultáveis, com notoriedade já consolidados em Minas Gerais.
Ao adquirir extensa área de terras, Joaquim a batizou de Fazenda Santa Mariana, homenageando, pois, sua esposa, Mariana Balbina de Meirelles, a Dona Balbina.
Com o propósito de garantir pleno domínio de sua propriedade, o capitão mineiro proibiu o frequente tráfego de tropeiros em suas terras, agitação esta oriunda de uma balsa, cujo responsável se tornou, anos mais tarde, o patrono de uma vila denominada Porto de João Ferreira. De acordo com o professor Flávio da Silva Oliveira:
“as tropas que integravam o sistema de transporte entre o Litoral Paulista e Uberaba (no atual Triângulo Mineiro), cidade que servia de centro recebedor e distribuidor de mercadorias, atendendo várias regiões circunvizinhas, não mais podiam alcançar a balsa que lhes permitia a travessia do rio. Por esta razão, o balseiro João Inácio Ferreira, não teve alternativa senão mudar-se de mala e cuia para outro local, Moji abaixo, a fim de poder dar continuidade à sua faina diária. (…)”.
Por meio de uma atitude titular, de maneira incidental, Joaquim Procópio propiciou o surgimento de Porto Ferreira.
Neste contexto, inicia o cultivo agrícola da fazenda, a qual possui solo, na época, em grande parte, considerado impróprio para a lavoura. A prole se afeiçoa ao trabalho e divide com o pai os diversos atributos administrativos.
Embora sejam escassas as informações, restringindo-se em sua totalidade aos ditados orais, a Fazenda Santa Mariana se estrutura diante de uma crescente colônia de escravos e imigrantes europeus.
Paulatinamente, a propriedade se destaca entre as demais, ante a intensa produção de cafeeiros, tornando-se, em meados do século XX, a maior produtora de grãos de café de Porto Ferreira.
Em 1888, Joaquim Procópio falece e sua fazenda é herdada pelos seus filhos Cornélio e Procopinho. Na localidade, ocorre a divisão das terras, causando o ressurgimento da Fazenda Capão Bonito – que já possuía este nome antes de ser agregada -, com aproximados 609 alqueires, e preservando a Santa Mariana, mas com 974 al. Todavia, o documento que assegura a posse de cada bem só foi registrado em 1901, no Cartório de Registro de Imóveis e Anexos de Pirassununga.
Poucos anos depois, em 1904, o então vigário da paróquia ferreirense, padre Moysés Nora, organiza o esplêndido “Relatório da Freguezia de Porto Ferreira”, e aponta a existência das propriedades rurais e urbanas do município, incluindo as produções cafeeiras. Com fundamento na pesquisa documentada, considera-se a presença de cerca de 2500 colonos na Fazenda Santa Mariana, com a quantia expressiva de 338 mil pés; já na Capão Bonito, 1500 lavradores para labutar nos 248 mil pés – naquela época, a classificação de pés de café era referente à contagem das covas e não dos arbustos, os quais totalizam 4 por cada cavidade na terra.
Entre os trabalhadores e os moradores da crescente urbe, a propriedade recebe o adjetivo de “Rainha do Café” e o prestígio do coronel Procópio de Araújo Carvalho se consolida pela região, ocasionando sua disputa no cenário político.
Com o passar do tempo, novas culturas surgem no local: algodão, arroz, milho, feijão, e, paralelamente, a constante criação de animais, com aproximadas 500 cabeças de gado vacum.
A infra-estrutura da fazenda também é praticamente auto-sustentável: 9 colônias, com cerca de uma centena de casas; 3 tulhas, com maquinários para beneficiamento do café; expurgo; terreiro com 18 mil m²; oficina de carpintaria; oficina de ferraria; queijaria; monjolo; moinho; olaria; escola; igreja; etc.(continua na próxima semana)
Por Miguel Bragioni – Pesquisador da história de Porto Ferreira
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** Foto: animais em plena harmonia registrados pelo fotógrafo Manoel Lourenço Júnior possivelmente na década 1910







