Os primeiros dados que chamam atenção e são quase unanimidade entre os brasileiros são a fé na existência de Deus e a família como vínculo social mais importante
Faz algum tempo que estou devendo um texto de opinião sobre o livro “Brasil no Espelho”, escrito pelo cientista político Felipe Nunes e lançado em novembro de 2025. O livro é resultado de uma pesquisa aplicada, em 2023, a quase 10 mil brasileiros e busca entender qual é a identidade atual da população, fornecendo um rico material para quem busca compreender o país e o que irá motivar as pessoas no momento de escolher seus candidatos em outubro deste ano.
Os primeiros dados que chamam atenção e são quase unanimidade entre os brasileiros são a fé na existência de Deus e a família como vínculo social mais importante. Esses dois fatores são estruturantes para moldar o comportamento cotidiano, as prioridades, o caráter e as escolhas das pessoas.
No sentido da atuação profissional, o livro traz grandes contribuições para entender o desejo por trás das novas formas de trabalho do século XXI. O brasileiro revela-se cansado por conta das frustrações econômicas: 6 em cada 7 brasileiros precisam de mais de um trabalho para complementar a renda. A independência na atividade profissional surge como opção ao desgaste das relações tribalistas tradicionais, porém opera com renda volátil, jornada de trabalho estendida, aumento da responsabilidade individual pelas receitas e proteção social limitada.
O motivo de ser (ou não) bem-sucedido financeiramente é encarado com olhares diferentes pelo brasileiro. De modo geral, a maioria dos brasileiros considera que a causa da pobreza é a falta de merecimento ou esforço, dado que esclarece o fato da grande rejeição a políticas sociais, enquanto entende que as pessoas que são bem-sucedidas financeiramente são condicionadas pela sorte ou por questões hereditárias.
A sensação de insegurança presente na população não pode ser ignorada. Quando questionadas sobre grandes preocupações, as pessoas citaram violência (22%) e corrupção (18%) em primeiro e segundo lugar, respectivamente, motivadas pela noção histórica de patrimonialismo, do “jeitinho brasileiro”, da presença do tráfico, do crime e de escândalos recentes e sucessivos de corrupção. O livro retrata que os brasileiros anseiam por políticas de Estado punitivistas, mais duras no combate ao crime e à violência, porém rejeitam a ideia do armamento da própria população.
De modo geral, o brasileiro tem uma tendência conservadora em seus valores e acredita que o Estado deve atuar como solucionador dos problemas públicos, como segurança pública, educação e saúde. Isso explica por que a avaliação dos governantes acumula tanta rejeição quando soluções não são encontradas: a expectativa da população na resolução dos problemas é alta.
A observação acima se consolida quando o autor trata dos grupos ideológicos da sociedade brasileira: os Conservadores Cristãos, defensores dos valores tradicionais da família, e os Dependentes do Estado, que anseiam por políticas que promovam educação, saúde e assistência social. O livro fornece uma excelente perspectiva para entender os diferentes grupos ideológicos brasileiros, que, além dos dois citados acima, somam mais sete grupos: Agros, Progressistas, Militantes de Esquerda, Empresários, Liberais Sociais, Empreendedores Individuais e Extrema Direita — todos separados de acordo com singularidades que norteiam a forma de pensar das pessoas nos diferentes temas que rodeiam a sociedade.
O livro é muito rico e permite compreender a fundo a sociedade brasileira, com suas singularidades e particularidades. O texto aqui escrito é um pequeno apanhado de um material muito mais vasto e, sem dúvidas, será utilizado como embasamento para futuros textos. Além disso, para quem quer compreender quais são as pautas, os desejos e os motivos que fazem os brasileiros escolherem seus votos nas eleições de 2026, trata-se de um material fundamental, uma mina de ouro.
Por Gustavo Bispo – Graduando em Administração Pública pela Unesp de Araraquara (SP)







