Ao defender desindexação da Saúde, Educação e Previdência, economista-chefe da gestora Verde Asset foca o sacrifício na classe trabalhadora, , mas ignora o ralo dos incentivos fiscais ao topo da pirâmide.
Durante o evento anual da Verde Asset Management, realizado nesta quarta-feira em São Paulo, o economista-chefe da gestora, Marcos Fantinatti, verbalizou sem rodeios a velha receita do mercado financeiro para as contas públicas brasileiras: “O caminho é desindexar”.
Por trás do jargão técnico, a proposta desenha um cenário alarmante de asfixia social, onde o ajuste fiscal é cobrado integralmente de quem mais depende do Estado, enquanto os privilégios corporativos seguem blindados.
Fantinatti direcionou sua artilharia contra os pisos constitucionais da Saúde e da Educação, defendendo que esses investimentos cruciais deixem de ser atrelados ao aumento da receita do governo. Na prática, a tese prega uma redução real e progressiva nos direitos básicos da população.
Sob o argumento de conter o crescimento médio real da despesa, que, segundo seus cálculos, deve ficar em 4% no governo Lula 3, contra o patamar próximo a zero das gestões Temer e Bolsonaro, a Faria Lima,agora também conhecida como “Faria Lama”, tenta ressuscitar a lógica do antigo e fracassado teto de gastos.
A lógica de austeridade seletiva da Verde Asset vai além. O economista defendeu explicitamente a desvinculação das despesas do salário mínimo, o que golpeia diretamente o poder de compra e a subsistência de:
- Aposentados e pensionistas do INSS;
- Beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC);
- Trabalhadores de baixa renda.
Ao descolar esses benefícios do reajuste do salário mínimo, o mercado propõe que a estabilidade fiscal do país seja financiada pelo empobrecimento da classe trabalhadora e da população idosa ou da psessoa em situação de vulnerabilidade.
Fantinatti lamentou que o nível atual de despesas esteja R$ 500 bilhões acima do que seria caso o teto de gastos original estivesse vigente. O que o economista esquece de mencionar é que a “plena vigência” daquela regra teria colapsado os serviços públicos essenciais, aprofundado a fome no país e o caos na Saúde pública
O ponto mais crítico da postura da Verde Asset, contudo, reside naquilo que não foi dito. Enquanto se busca economizar bilhões sacrificando hospitais, escolas e aposentadorias, há uma blindagem absoluta em relação às bilionárias renúncias e incentivos fiscais concedidos a grandes corporações e setores selecionados da economia, uma verdadeira “Bolsa Empresário”.
Não houve menção clara e objetiva à necessidade de auditar ou cortar esses subsídios que drenam o caixa do governo sem contrapartida social clara. Para a elite financeira, o teto rigoroso e o “duro ajuste” valem para o trabalhador, mas o topo da pirâmide empresarial deve continuar operando no regime de fartura e isenções.
O mercado financeiro flerta com a insensibilidade social ao tentar traduzir cortes em direitos humanos fundamentais como mera eficiência macroeconômica.
Sustentar o equilíbrio fiscal do Brasil penalizando os pilares da dignidade social, enquanto se mantém intocada a farra dos incentivos corporativos, não é responsabilidade fiscal; é escolha ideológica de transferência de renda de baixo para cima.
Fonte: Valor Econômico







