Situação revela um contraste ético profundo, o partido Republicanos, que abriga parlamentares conhecidos por atuar em quadros televisivos de “defesa do consumidor”, mas que se calam diante dessa exploração de vulneráveis
A fronteira entre a fé e a exploração financeira voltou a ser delimitada pelo Judiciário brasileiro. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a anulação de doações vultosas feitas por uma fiel à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), após ficar comprovado que a instituição utilizou de persuasão coercitiva contra uma mulher em situação de extrema vulnerabilidade.
O caso, que expõe as entranhas do império de Edir Macedo, revela um contraste ético profundo: de um lado, a pregação do sacrifício financeiro total; do outro, um braço político — o partido Republicanos — que abriga parlamentares conhecidos por atuar em quadros televisivos de “defesa do consumidor”, mas que se calam ou protegem a estrutura que asfixia o patrimônio de seus próprios seguidores.
A decisão, relatada pelo ministro Humberto Martins, ratificou o entendimento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). Os autos descrevem um cenário de manipulação psicológica onde a fiel, fragilizada emocionalmente, foi convencida a entregar: R$ 500 mil em espécie e um carro importado de alto valor.
O montante transferido à igreja foi tão expressivo que comprometeu a subsistência digna da doadora. A Justiça aplicou o Artigo 548 do Código Civil, que proíbe a “doação universal” — quando o doador repassa todos os seus bens sem reservar o mínimo para sobreviver.
“A doadora foi persuadida por pastores a realizar doações que a colocaram em situação financeira adversa, sem reserva suficiente para sua subsistência”, destacou o ministro em seu relatório.
A condenação judicial joga luz sobre a influência da IURD no Congresso Nacional. O partido Republicanos, considerado o braço político da denominação, possui figuras de proa que construíram suas carreiras públicas sob a bandeira da ética e da proteção aos direitos do cidadão/consumidor e contra abusos de empresas e combate ao crime.
Entretanto, quando o “abuso de consumo” ocorre dentro dos templos, através da venda de promessas metafísicas em troca de patrimônio real, a bancada se fecha em copas. A manutenção da sentença pelo STJ é um golpe na narrativa de idoneidade da instituição, provando que a “liberdade religiosa” não é um salvo-conduto para o enriquecimento ilícito às custas do desespero alheio.
Fonte: Metrópoles







