Investigações oficiais não ocultam padrão de desrespeito a outras crenças por soldados que se veem como “povo escolhido de Deus”
Uma imagem tem circulado nas redes sociais e provocado revolta em comunidades cristãs ao redor do mundo: um soldado das Forças de Defesa de Israel (FDI) coloca um cigarro aceso na boca de uma estátua da Virgem Maria, na vila cristã de Debel, no sul do Líbano.
O caso, confirmado pelas próprias FDI na última quarta-feira (6.mai.2026), ocorreu há algumas semanas, mas veio à tona apenas agora, somando-se a um histórico de atos de profanação que revelam algo muito mais grave do que “isolados excessos individuais”.
As FDI afirmaram que investigam o episódio. No entanto, a imagem surge pouco depois de outra repercussão negativa envolvendo a destruição de uma estátua de Jesus Cristo no mesmo local por outro soldado israelense. Para críticos e lideranças religiosas, esses atos não são acidentais são sintoma de uma cultura anticristã impregnada nas fileiras militares de Israel, onde muitos soldados agem movidos por uma visão teológica distorcida que os coloca como “os únicos representantes de Deus na terra”.
“Povo escolhido” como justificativa para a intolerância – a noção de supremacia religiosa, alimentada por décadas de doutrinação nacionalista e messiânica em setores das Forças Armadas israelenses, tem se traduzido em comportamento de desprezo por outras tradições religiosas.
O que se vê no Líbano, especialmente contra símbolos do catolicismo, é a face mais explícita dessa arrogância espiritual: estátuas vandalizadas, igrejas desrespeitadas e um tratamento que reduz as crenças alheias a objetos de escárnio.
“Colocar um cigarro na boca de Nossa Senhora não é ‘brincadeira de soldado’ — é um ato de profunda barbárie cultural e religiosa”, afirmou dom Elias Chacour, arcebispo emérito da Galileia, em entrevista a veículos libaneses. “Revela um ódio silencioso, mas sistemático, contra o cristianismo no Oriente Médio por parte das Forças Israelenses, vindo justamente de quem deveria pregar respeito entre os povos da região.”
Para a historiadora libanesa Nayla Haddad, especialista em patrimônio religioso do Oriente Médio, “não se trata de casos isolados. É uma política implícita de aniquilamento simbólico do outro. Ao profanar o que é sagrado para os cristãos, Israel envia uma mensagem clara: neste território, apenas a narrativa judaica e uma versão extremista que somente os judeus tem direito à sacralidade.”
Lideranças católicas no Líbano exigem que o Vaticano tome uma posição pública mais dura e que a ONU reconheça esses atos como violações do direito humanitário internacional, que protege locais e símbolos religiosos em zonas de conflito.
A pergunta que fica, ecoada em alta voz por cristãos libaneses, é: quantas estátuas de Jesus e Maria precisarão ser destruídas ou ridicularizadas para que o mundo entenda que não há “escala aceitável” de intolerância religiosa quando praticada por forças israelenses ocupantes.
Fonte: Le Monde, Folha de S. Paulo e AlJazeera







