O Congresso Nacional dominado pelo parlamentares do Centrão ignora a sociedade e transforma o orçamento público em combustível para a perpetuação do poder e a criação de currais eleitorais.
O veredito das urnas invisíveis da opinião pública é implacável, mas parece não ecoar nos corredores de mármore de Brasília. Segundo dados recentes, a avaliação dos congressistas brasileiros segue em patamares alarmantes: apenas 15% de aprovação positiva contra 37% de rejeição negativa. O cenário de profunda desconfiança se estabilizou no pior momento possível, consolidando a derrocada iniciada em março, que já havia sepultado os índices ligeiramente melhores de dezembro de 2025.
Mas por que o Legislativo flerta de forma tão confortável com a impopularidade? A resposta está na mudança do DNA político da Praça dos Três Poderes, hoje controlada por um consórcio de partidos que transformou o Estado em propriedade privada: o Centrão.
O Casamento entre o Patrimonialismo e a Prática Fisiológica – o divórcio entre os anseios da população e a agenda do Congresso não é um acidente de percurso; é um projeto. Dominado por legendas que orbitam o poder independentemente de matrizes ideológicas, o Parlamento brasileiro aprofundou as raízes do fisiologismo mais tacanho. A lógica é a do “toma lá, dá cá” levada às últimas consequências.
Não se votam projetos pelo impacto social ou pela modernização do país, mas pelo preço que o Executivo está disposto a pagar em cargos, autarquias e, principalmente, no controle do Orçamento Geral da União. O patrimonialismo clássico — onde a coisa pública é tratada como extensão do quintal particular dos políticos — ganhou contornos de sofisticação tecnológica e jurídica, mas mantém o mesmo odor de mofo do Brasil do século XIX.
O “Câncer das Emendas Impositivas” e a “Indústria do Curral Eleitoral” – o ápice dessa engrenagem predatória atende pelo nome de emendas impositivas. Sob o falso pretexto de “descentralizar os recursos públicos” e dar autonomia aos parlamentares para atenderem suas bases, o Congresso criou uma máquina de corrupção institucionalizada e fragmentação orçamentária.
- Zero Planejamento: bilhões de reais são pulverizados anualmente sem qualquer critério técnico, estudo de viabilidade ou alinhamento com os planos nacionais de desenvolvimento. Enquanto hospitais regionais sofrem com a falta de insumos básicos, municípios minúsculos recebem verbas desproporcionais para obras supérfluas ou pavimentações que desaparecem na primeira chuva.
- A Farra das “Emendas Pix”: o fluxo financeiro carimbado por deputados e senadores tornou-se um atalho para desvios. Sem fiscalização prévia e de liberação obrigatória, o dinheiro cai diretamente nas contas de prefeituras aliadas, alimentando esquemas de superfaturamento e fraudes em licitações que abastecem os bolsos de caciques políticos.
- Perpetuação do Poder: o objetivo final dessas emendas não é o bem-estar social, mas a pavimentação de campanhas eleitorais. Trata-se da reedição moderna do “voto de cabresto”. O parlamentar irriga o reduto político com dinheiro público sem planejamento, o prefeito aliado garante os votos na ponta, e o ciclo de dominação se renova. Cria-se um ecossistema onde o mérito político é medido pelo tamanho do quinhão orçamentário capturado, asfixiando novas lideranças e alternativas de poder.
Um parlamento de costas para a Nação – estabilidade na baixa aprovação popular (37% de rejeição) reflete o esgotamento de uma sociedade que trabalha cinco meses por ano para pagar impostos que, em grande parte, viram fumaça no balcão de negócios de Brasília. O Congresso Nacional tornou-se uma cidadela isolada, imune ao clamor das ruas porque descobriu como autofinanciar sua sobrevivência com o dinheiro de quem o odeia.
Enquanto as emendas impositivas forem o coração pulsante da governabilidade e o Centrão ditar o ritmo das votações com base no interesse fisiológico, os 15% de aprovação correm o risco de parecer generosos. O Brasil assiste, refém, ao sequestro de seu orçamento por uma elite política que prefere reinar sobre as ruínas do desenvolvimento a abrir mão de seus privilégios patrimonialistas.
Por Marco Antônio Mourão – Gestor Educacional e de Pessoas, Professor aposentado, Sócio proprietário da Equipe Assessoria Educacional Ltda, adora conversar sobre Política do dia a dia, Ciência Política, Economia e Gestão Pública Municipal.








