Ao acenar positivamente para Cury, o governador de SP sinaliza que pode abandonar Flávio Bolsonaro. Resta saber se o eleitorado bolsonarista continuará aceitando o discurso de lealdade verbal, mas na prática a traição corre solta.
O tabuleiro político para as eleições de 2026 começa a dar sinais de que as aparências públicas nem sempre refletem as articulações de bastidor. Oficialmente pré-candidato à reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem mantido uma postura pública de apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a disputa presidencial. O movimento é visto por aliados como um aceno indispensável para garantir a fidelidade do eleitorado bolsonarista raiz em São Paulo.
No entanto, nos bastidores e através de gestos altamente simbólicos, Tarcísio envia recados que expõem as rachaduras dessa aliança. O mais recente capítulo desse jogo duplo ficou evidente nesta segunda-feira (3), no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), durante a convenção do partido Avante.
Afago ao adversário de Flávio – o evento oficializou a candidatura do escritor e médico Augusto Cury à Presidência da República. O que chamou a atenção dos analistas políticos, porém, foi a ostensiva presença de Tarcísio de Freitas. O governador não apenas fez questão de chegar ao plenário acompanhado do novo pré-candidato, como sentou-se lado a lado com ele na mesa oficial de honra.
Em seu discurso, com forte apelo às realizações da gestão estadual, Tarcísio fez questão de desejar “boa sorte” à empreitada nacional de Cury, oferecendo uma ponte de apoio direto ao partido e aos presentes.
“Para dizer a você, Augusto Cury, que com muita coragem, você que é uma pessoa consagrada, que se lança à Presidência da República, a gente está aqui para te desejar também boa sorte nessa caminhada. É uma alegria poder contar com cada um de vocês e eu quero que cada um de vocês possa contar comigo“, declarou o governador, dirigindo-se também aos pré-candidatos a deputado que ocupavam a plateia.
A participação entusiasmada de Tarcísio em um ato que lança um concorrente direto ao Planalto não passou despercebida por setores fiéis à família Bolsonaro.
Para esses interlocutores, o episódio reforça a percepção de que o apoio a Flávio Bolsonaro cumpre um papel meramente tático, uma blindagem política necessária para evitar acusações de deserção e resguardar os votos bolsonaristaspara sua reeleição em SP. Ao acenar positivamente para Cury, Tarcísio sinaliza ao aliados que não está totalamente com a candidatura do filho de Jair Bolsonaro.
Os primeiros passos dessa caminhada ambígua já foram dados. Resta saber se o eleitorado bolsonarista continuará aceitando o discurso de lealdade verbal enquanto Tarcísio divide o palco e o apoio com adversários de Flávio Bolsonaro.
Fonte: Estadão







