O estado de SP registra apenas 1,8 policial militar para cada mil moradores, uma taxa inferior a de estados nordestinos e do Norte que operam sob restrições orçamentárias severas
O discurso de rigor no combate ao crime esbarra em uma contradição indigesta no Sudeste. Donos do maior Produto Interno Bruto (PIB) e das maiores arrecadações do país, São Paulo e Rio de Janeiro amargam índices vergonhosos na proporção de agentes de segurança por habitante, ficando atrás de estados com recursos imensamente inferiores, como os do Nordeste.
Os dados do último raio-X das forças de segurança, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no início de agosto, revelam que a fartura orçamentária dos estados mais ricos do Brasil não se traduz em prioridade institucional. Pelo contrário: escancaram uma política de sucateamento e falta de planejamento a longo prazo.
Na Polícia Militar, a média nacional já é baixa: 1,9 PM por mil habitantes. No entanto, a locomotiva econômica do país patina abaixo desse patamar. São Paulo registra apenas 1,8 policial militar para cada mil moradores, uma taxa inferior a de estados nordestinos e do Norte que operam sob restrições orçamentárias severas. Embora o governo paulista ostente o maior efetivo absoluto do país (82,2 mil agentes), o número serve apenas como maquiagem estatística: dilutionada na imensa população, a presença ostensiva é escassa.
Se na PM a situação é alarmante, na investigação o cenário emite alertas vermelho. O quadro geral do país reflete o descalabro dos grandes estados. A Polícia Civil nacional opera com apenas 55,2% dos seus postos ocupados, acumulando um déficit que supera 78 mil policiais. O resultado prático é o colapso da atividade-fim: inquéritos mofando nas prateleiras, equipes remanescentes à beira do burnout e taxas irrisórias de elucidação de crimes.
A disparidade entre a riqueza produzida e o investimento real em capital humano nas polícias desmistifica a narrativa dos governantes do Sudeste. O caso dos Corpos de Bombeiros evidencia ainda mais essa distorção: enquanto estados do Nordeste garantem a estrutura possível e o DF lidera com 1,9 bombeiro por mil habitantes, São Paulo sequer possui dados isolados e transparentes por embutir a corporação na PM.
A pesquisa do FBSP demonstra que ter caixa disponível não garante segurança pública. Sem vontade política para realizar concursos, valorizar carreiras e planejar o futuro, São Paulo e Rio de Janeiro preferem empurrar a conta do déficit institucional para a população, que paga impostos de primeiro mundo para receber um policiamento sufocado e sem pernas.
Fonte: Folha de S. Paulo







