O cerne das suspeitas reside na diferença entre o que está pactuado e o que é efetivamente entregue pela empresa contratada.
A gestão do prefeito André Braga em Porto Ferreira enfrenta uma crise de credibilidade e fiscalização no setor de coleta de lixo no município. Quase um ano após o encerramento unilateral do contrato anterior, motivado por um colapso na coleta de resíduos sólidos no fim de 2025, a administração municipal rompeu com a empresa prestadora e recorreu a um contrato emergencial com uma nova empresa sob a promessa de normalizar o serviço.
Contudo, o que se vê nas ruas é a repetição sistemática dos mesmos problemas, com o agravante de fortes suspeitas de desperdício e pagamento por serviços não realizados.
O estopim da indignação estourou na Câmara Municipal durante a sessão de 24 de agosto de 2026, com a discussão do Requerimento nº 741/2026. De autoria dos vereadores Rodrigo Louzada, Taís de Cassia Comandini, Matheus Ribaldo Ferreira da Costa, Priscila Franco de Oliveira e Felipe Antonio Strozzi Lamellas, o documento exige explicações urgentes sobre o descumprimento das cláusulas contratuais pela nova empresa prestadora.
Frota fantasma e possível pagamento integral por serviço pela metade – o cerne das suspeitas reside na diferença entre o que está pactuado e o que é efetivamente entregue. Segundo as diretrizes do Executivo, a empresa contratada tem a obrigação de disponibilizar quatro caminhões coletores, sendo três em operação diária e um de reserva.
No entanto, uma fiscalização surpresa realizada pelos parlamentares ao aterro sanitário municipal revelou um cenário alarmante: apenas dois caminhões estavam trabalhando. Para piorar, um desses veículos operava de forma precária, pois estava quebrado e só começou a operar após as 10 horas da manhã. O caminhão reserva, essencial para suprir falhas de maquinário, sequer foi localizado pelos fiscalizadores.
“O contrato está sendo pago integralmente. A prefeitura repassa o pagamento e quem paga é o povo. Estamos pagando um valor que não está sendo retribuído para a população“, protestou o vereador Rodrigo Louzada. Ele questiona se a Secretaria de Meio Ambiente e Zeladoria, pasta responsável por fiscalizar o contrato, emitiu qualquer tipo de notificação ou sanção contra a empresa emergencial.
Enquanto a coleta e deposição do lixo do município é feita com baixa qualidade e muitas vezes menos do que deveri ser feito, o contribuinte ferreirense paga muitas vezes por 6 dias de coletas diárias por semana, mas o que se vê é: muitos dias não havedo coleta e o lixo acumulando nas lixeiras das calçadas por mais de 24 horas. O vereador Felipe Lamelas denunciou que, desde o início do ano, diversos moradores tiveram a frequência de coleta alterada em seus logradouros e muitas vezes não houve a coleta.
A revolta dos munícipes é que, apesar de pagarem pelo serviço de coleta diária (seis vezes por semana), os caminhões simplesmente não passam com a regularidade cobrada. Ação mencionada pelo vereador Felipe Lamellas
Segundo o vereador Lamellas o método utilizado pela prefeitura para “auditar” se a empresa cumpre as rotas beira o amadorismo. De acordo com relatos colhidos pelos parlamentares junto a servidores da Secretaria de Meio Ambiente, a comprovação do serviço consiste no fato de o motorista do caminhão enviar uma foto diariamente em frente ao endereço.
O Legislativo critica duramente essa prática: “Além de ser muito rudimentar, não é um mecanismo formal de comprovação”, destacou Lamelas, que defende a obrigatoriedade de rastreadores GPS nos caminhões para auditar rotas, horários e locais exatos de passagem.
Aterro sob Suspeita e máquinas quebradas – a fiscalização dos vereadores também apontou irregularidades no descarte de resíduos. Relatos indicam que parte do maquinário do próprio aterro sanitário está quebrado ou sem condições adequadas de funcionamento. Além disso, caminhões estariam circulando sem capacidade total de carga devido a avarias mecânicas.
A tentativa de vistoria minuciosa por parte dos vereadores, contudo, foi barrada. A comitiva legislativa foi impedida de inspecionar todas as dependências do aterro municipal após denúncias de que havia trabalhos irregulares sendo executados no local. “Não deixaram nós fiscalizarmos tudo (…) não fomos autorizados a ir a fundo em todas as partes“, lamentou Louzada.
O Requerimento protocolado exige que a prefeitura forneça, no prazo legal, a relação de todos os caminhões em operação (com placas e documentos), os registros de pesagem dos últimos 30 dias na chegada ao aterro, o inventário de máquinas públicas e privadas no local, e as cópias de eventuais notificações enviadas à empresa.
O silêncio ou a omissão da prefeitura diante de um contrato emergencial inflacionado e ineficiente reforça a urgência de uma devassa nas contas públicas de Porto Ferreira, sob pena de a população continuar financiando uma frota que só existe no papel.
Fonte: Sessão da Câmara Municipal de Porto Ferreira e site oficial da Câmara Municipal







