Para os bolsonaristas, o “Satanás” de ontem é o “Deus” de hoje. Não por uma mudança de caráter, mas porque, no mercado de conveniências de Brasília, ele finalmente aceitou pagar o preço da entrada no Olimpo
A política brasileira é fértil em reviravoltas, mas poucas trajetórias recentes são tão pedagógicas sobre a natureza do pragmatismo ideológico quanto a do senador e presidente do Congresso Davi Alcolumbre (União-AP). Em menos de seis meses, o senador deixou de ser o “Satanás” apontado como cúmplice do sistema que protege o STF e o Banco Master para se tornar o “Ungido” das redes sociais bolsonaristas por apoiar a aprovação da “anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O preço dessa canonização? Derrubar os vetos da Presidência no PL da Dosimetria – diminuindo penas de condenados pela tentativa de “Golpe de Estado”, em contrapartida: os bolsonaristas arquivam o desejo de CPI do caso do Banco Master, esse no qual Alcolumbre está até o pescoço devido ao Fundo de Previdência do Amapá.
Até o final de 2025, o nome de Alcolumbre era proferido nos grupos de Telegram e WhatsApp da extrema-direita com o mesmo desdém reservado aos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ele era acusado de “sentar em cima” de pedidos de impeachment de ministros do STF e da CPI do Banco Master.
Naquela época, para a militância, Alcolumbre era o símbolo da “velha política”, um obstáculo intransponível para a “libertação do Brasil”.
A conversão começou a ser desenhada com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF, porém extremamente útil ao chefe do senado – pois acredita-se que Jorge Messias iria aliar-se ao ministro André Mendoça e no STF colocarem o caso Master para encriminar ministro do pró´rio STF e políticos do Centrão comunados com Daniel Vorcaro.
Ao operar a chamada “PL da Dosimetria”, Alcolumbre entregou exatamente o que o bolsonarismo precisava: um caminho jurídico para a redução de penas e eventual anistia de Jair Bolsonaro.
A contradição, contudo, reside nas notas de rodapé dessa manobra. Para isolar os benefícios que atingiriam o ex-presidente, o senador precisou manusear um texto que, na prática, afrouxa o combate a facções criminosas. Onde antes havia o discurso de “bandido bom é bandido morto”, agora impera um silêncio corporativista.
Parlamentares da oposição, que antes pediam a cabeça de Alcolumbre, hoje desfilam ao seu lado em vídeos de agradecimento. A retórica contra a “corrupção” e o “acordão” foi substituída por uma exaltação ao “equilíbrio de poderes”.
Davi Alcolumbre não mudou seus métodos; mudou apenas o beneficiário de suas estratégias, daqui alguns dias vboltará a ser chamado de Satanás, pois sua tática é cria dificuldades ao governo de plantão, para depois vender facilidades, trite daqueles que acreditam em mudança para “bom moço” do senador do Amapá
Para os bolsonaristas, o “Satanás” de ontem é o “Deus” de hoje. Não por uma mudança de caráter, mas porque, no mercado de conveniências de Brasília, ele finalmente aceitou pagar o preço da entrada no Olimpo da direita: colocar os interesses do grupo acima de qualquer coerência ética ou segurança pública.
Por Marco Antônio Mourão – Gestor Educacional e de Pessoas, Professor aposentado, Sócio proprietário da Equipe Assessoria Educacional Ltda, adora conversar sobre Política do dia a dia, Ciência Política, Economia e Gestão Pública Municipal.








